Penélope Cruz e Javier Bardem em "Todos Já Sabem". Foto: Universal/Divulgação

Quando o Irã encontra a Espanha

"Todos Já Sabem", novo filme do premiado diretor iraniano Asghar Farhadi, reúne no elenco os espanhóis Penélope Cruz e Javier Bardem e o argentino Ricardo Darín

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O cinema iraniano começou a chamar a atenção do Ocidente em 1987, quando o filme Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, do diretor Abbas Kiarostami (1940 – 2016), destacou-se no Festival de Locarno, na Suíça. A partir de então, todos os filmes seguintes do mestre foram vistos com admiração pelos cinéfilos do mundo inteiro e premiados nos principais festivais internacionais – abrindo caminho para a divulgação e o surgimento de talentosos realizadores do Irã: Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi, Samira Makhmalbaf, Majid Majidi, Bahman Ghobadi, Dariush Mehrjui e muitos outros. Nos últimos anos, um novo nome veio se juntar a esse grupo, disputando com o pioneiro Kiarostami o posto de cineasta mais célebre de seu país: Asghar Farhadi.

Mestre em direção teatral pela Universidade de Teerã, Farhadi tornou-se um habitué do circuito festivaleiro depois do ótimo Procurando Elly, de 2009, vencedor do Urso de Prata de direção no Festival de Berlim. O cineasta enfileirou daí em diante uma série admirável de prêmios importantes: Oscar e Globo de Ouro de filme estrangeiro e Urso de Ouro no Festival de Berlim pela obra-prima A Separação (2011), melhor atriz no Festival de Cannes para Bérénice Béjo em O Passado (2013), novamente o Oscar de filme estrangeiro e prêmios de melhor roteiro e ator (Shahab Hosseini) em Cannes por O Apartamento (2016). Depois de filmar pela primeira vez fora do Irã em O Passado, produção rodada na França, Farhadi ambientou agora seu novo drama na Espanha: Todos Já Sabem conta com um elenco hispânico estelar, encabeçado pelos espanhóis Penélope Cruz e Javier Bardem e pelo astro argentino Ricardo Darín.

Oitavo longa de Farhadi, Todos Já Sabem abriu o Festival de Cannes do ano passado. O filme que entrou em cartaz nesta semana no Brasil marca a quinta parceria na tela do casal Penélope e Javier, que também atuou junto em Jamón, Jamón (1992), Vicky Cristina Barcelona (2008), O Conselheiro do Crime (2013) e Escobar: A Traição (2017). Em Todos Já Sabem, Penélope Cruz interpreta Laura, espanhola que vive com o marido Alejandro (Ricardo Darín) e os filhos na Argentina e que volta para seu povoado natal para o casamento de uma irmã. Viajando apenas com as crianças, Laura reencontra no pitoresco pueblo em que passou boa parte da vida parentes e amigos – inclusive o ex-namorado de juventude Paco (Javier Bardem), produtor de vinhos casado com uma professora da escola local (Bárbara Lennie). O clima alegre de reencontro e de celebração chega ao clímax na festa de bodas na ampla e tradicional casa da família de origem abastada – no entanto, no auge da comemoração, um evento trágico vai subitamente alterar o registro da história, mergulhando-a em um ambiente de angustiante suspense policial. O terrível episódio desperta em quase todos os personagens ressentimentos latentes, paixões antigas e segredos silenciados, instaurando a dúvida e a desconfiança entre casais, parentes e amigos.

Em Todos Já Sabem, Farhadi revisita de certo modo a premissa de Procurando Elly, filme que acompanha o misterioso desaparecimento de uma professora de jardim de infância durante um piquenique de amigos em uma praia do norte do Irã. Em seu novo trabalho, o diretor e roteirista constrói um intrigante enredo do tipo whodunit – aquelas tramas detetivescas nas quais todos são suspeitos do crime –, cuja tensão crescente contamina tanto o variado leque de personagens quanto os espectadores. A despeito de conduzir com segurança e equilíbrio um conto de corte investigativo em uma estrutura narrativa coral cheia de figuras, Farhadi não se limita ao filme de gênero, imprimindo uma marca autoral graças ao acréscimo de tópicos recorrentes em sua filmografia: a sombra das disputas sociais e das crenças religiosas, os choques entre diferentes condutas morais e códigos de honra, as assimetrias entre as visões de mundo masculinas e femininas, o patriarcalismo, a culpa recalcada, os esqueletos que as famílias guardam no armário, os conflitos de gerações. Oscilando entre o thriller policial e a crônica de costumes, entre Agatha Christie e Anton Tchekhov, o roteiro corteja temerariamente o melodrama – sem, no entanto, jamais ceder à facilidade de seguir o caminho das emoções descabeladas e ações mirabolantes.

Todos Já Sabem talvez seja o filme com maior vocação popular de Asghar Farhadi. Não tem a potência envolvente de A Separação, mas evita o cerebralismo seco de O Apartamento. Se não está exatamente à altura dos principais títulos de seu realizador, Todos Já Sabem tem o grande mérito de manipular com inteligência e desenvoltura as regras do suspense cinematográfico, apresentando uma história perpassada por um difuso tom de mal estar atávico que remete a Caché (2005) – ainda que o drama do iraniano não tenha a crua estranheza do filme do austríaco-alemão Michael Haneke. Todos Já Sabem, enfim, prova definitivamente que as radiografias sociais registradas por Farhadi são universais e podem dispensar qualquer referência direta à origem do criador – apesar de ambientado na França, O Passado era coprotagonizado por um personagem iraniano que queria voltar para seu país. Muito da efetividade desse novo filme, justiça seja feita, deve-se à excelência e homogeneidade do elenco, que reúne, além do trio central, um dream team de atores espanhóis, como o ótimo Eduard Fernández e a bela atriz e cantora Inma Cuesta – que interpreta a música dos créditos finais de Todos Já Sabem.

 

Originalmente publicado no site Coletiva.net em 22/2/2019

 

Todos Já Sabem:  * * * *

 

COTAÇÕES

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