Daveed Diggs e Rafael Casal em "Ponto Cego". Foto: Paris Filmes/Divulgação

Todos merecem uma segunda chance

Em cartaz na Capital, o filme norte-americano "Ponto Cego" e o brasileiro "Mare Nostrum" abordam personagens fracassados em busca de redenção

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Contos de fracassados em busca de redenção costumam sempre nos emocionar. A identificação com esse tipo de anti-herói é quase automática e unânime: quem não se reconhece de alguma forma naquele sujeito que pisou feio no bola e tenta sincera e às vezes desesperadamente se redimir do erro? Quem nunca ansiou por uma nova oportunidade para enfim fazer a coisa certa e consertar o estrago provocado? Pois dois dos mais interessantes filmes em cartaz a partir desta semana na capital gaúcha mostram personagens correndo atrás de uma segunda chance: o norte-americano Ponto Cego e o brasileiro Mare Nostrum.

Primeiro longa-metragem do diretor de clipes musicais Carlos López Estrada, Ponto Cego foi recebido com entusiasmo em festivais como o de Sundance, a principal vitrina do cinema independente nos Estados Unidos. Escrito pelos atores Daveed Diggs e Rafael Casal, o roteiro foi criado a partir vivências e impressões da dupla sobre sua Oakland natal – cidade que, como muitas comunidades urbanas contemporâneas ocidentais, é um caldeirão multicultural fervendo por conta da gentrificação, do racismo e da degradação social. Em Ponto Cego, o negro Collin (Diggs) e o branco Miles (Casal) são grandes amigos de infância que trabalham juntos em uma transportadora. A trama se inicia nos últimos três dias de liberdade condicional de Collin, que tenta se manter na linha para conquistar uma nova chance na sociedade. Mas as circunstâncias que rodeiam Collin e, principalmente, a má influência de Miles – que, apesar de ter emprego, mulher e filho, comporta-se como um "gangsta" e só não está preso por detalhe – tornam esses três dias de pena derradeiros em uma verdadeira provação. Collin sente-se ainda mais acuado depois de presenciar um acontecimento violento e traumatizante: ao dirigir o caminhão de volta do trabalho, testemunha um policial branco atirar pelas costas e matar um jovem negro em fuga. O personagem tenta a princípio deixar de lado o episódio, evitando comprometer-se às vésperas da liberdade – mas a cena e a visão da vítima insistem em perturbar-lhe a consciência.

O estreante Carlos López Estrada acerta muito bem na condução narrativa de Ponto Cego, aliviando a tensão constante – Collin parece que vai meter os pés pelas mãos a qualquer momento – com inspiradas doses de humor e mesmo de drama romântico. Já a química entre Daveed Diggs – ator e rapper que despontou com o musical Hamilton – e Rafael Casal é decisiva no resultado: as afinidades e diferenças entre os parceiros vão ganhando relevância à medida que o enredo avança, evidenciando ressentimentos e tensões raciais latentes ao embalo do rap freestyle que ambos exercitam com desenvoltura. Apesar das derrapadas do roteiro em algumas passagens melodramáticas e um tanto artificiosas, Ponto Cego é uma agradável surpresa, que funciona tanto como drama de denúncia social quanto comédia sobre amizade.

Mare Nostrum investe no tom agridoce para contar a trajetória de dois fracassados unidos pelo acaso em sua tentativa de reerguer-se. O diretor Ricardo Elias escalou novamente o ator Silvio Guindane, com quem já tinha trabalhado antes em De Passagem (2013) – vencedor de cinco prêmios no Festival de Gramado, incluindo melhor filme e direção –, para encabeçar o elenco de sua nova produção. Em Mare Nostrum, Roberto (Guindane) e Mitsuo (Ricardo Oshiro) voltam ao Brasil no mesmo dia de 2011, depois de longa temporada morando no Exterior. O jornalista Roberto retorna cheio de dívidas depois que a crise econômica internacional chega até a Espanha, Mistuo e a esposa perderam tudo com o acidente nuclear seguido de tsunami em Fukushima, no Japão. Suas vidas se cruzam por conta de um terreno no litoral sul de São Paulo negociado por seus pais no passado, em 1982, às vésperas da Copa do Mundo – o Mundial da Espanha e o futebol de modo geral será um dos elos entre os personagens. Sem dinheiro, os dois veem na propriedade comprada pelo pai de Roberto, mas ainda registrada no nome do pai de Mitsuo, uma possibilidade de se acertarem financeiramente – em especial depois que alguns eventos e coincidências levam-nos a acreditar que o terreno é mágico.

Como em Ponto Cego, a dupla central de Mare Nostrum encarna um encontro étnico: Roberto é negro, Mistuo é nissei. Diferentemente do filme norte-americano, porém, há um notável desequilíbro de interpretações entre os personagens principais – Silvio Guindane rende muito mais em cena do que o limitado Ricardo Oshiro. No entanto, quem brilha mesmo na tela é Carlos Meceni: interpretando Orestes, corretor de imóveis com pinta de picareta e cheio de frases feitas, o ator constrói uma figura tipicamente brasileira, adorável em sua mistura de esperteza e simplicidade. Aliás, essa aposta no cotidiano, no ordinário e na miudeza da vida feita de pequenas alegrias e amargas decepções é o grande acerto de Mare Nostrum. O realizador Ricardo Elias diz ter se inspirado em seu filme na obra dos japoneses Yasujiro Ozu, Hirokazu Kore-eda e Naomi Kawase, mestres de épocas distintas na narração de histórias familiares corriqueiras e emocionantes – uma influência que o núcleo de Mitsuo torna visualmente óbvia. Pena que Mare Nostrum sucumba no fim das contas a muitas soluções fáceis, apressadas ou sentimentais, comprometendo a densidade da narrativa e abrindo mão do rigor que caracteriza e distingue as produções dos citados Ozu, Kore-eda e Kawase.

 

Ponto Cego: * * * *

Mare Nostrum: * * *

 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

 

Assista ao trailer de Ponto Cego:

 

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