O ator espanhol Antonio de la Torre interprete o tupamaro José Mujica. Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

Um filme para quem tem saudades da ditadura

"Uma Noite de 12 Anos" recupera um dos mais sombrios episódios da história recente do Uruguai: o encarceramento bárbaro de guerrilheiros tupamaros como o futuro presidente José Mujica

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Ao renunciar ao cargo de senador no dia 14 de agosto passado, José Mujica abandonou a vida política institucional. "Eu diria que estou cansado da longa viagem", justificou o veterano líder esquerdista de 83 anos em carta lida no Senado uruguaio por sua esposa, a também senadora Lucía Topolansky, presidente da casa. A aposentadoria de Pepe Mujica, porém, não significa um total afastamento do debate público: "Enquanto minha mente funcionar, não posso renunciar à solidariedade e à luta de ideias", acrescentou o ex-presidente uruguaio.

O sóbrio gesto de despedida pública do carismático político é coerente com a imagem de lucidez, despojamento e temperança com que Mujica ficou mundialmente conhecido – sobretudo a partir de 2010, quando passou a governar o Uruguai, colocando o pequeno país na vanguarda internacional em várias questões políticas, sociais e comportamentais. No entanto, a trajetória do cultuado prócer progressista nem sempre foi serena – ao contrário: em meados dos anos 1960, ligado ao Movimiento de Liberación Nacional-Tupamaros, ele participou de ações de guerrilha urbana como assaltos, sequestros e tomadas de quartéis e delegacias. Foi preso quatro vezes, escapou das grades espetacularmente em duas ocasiões, levou seis tiros – algumas balas ainda estão no seu corpo até hoje. Ficou quase 15 anos encarcerado, só ganhando a liberdade em 1985, com o fim da ditadura militar na banda oriental.

É esse homem de ação, desassossegado, estressado, acuado por fantasmas pessoais e pela violenta repressão do regime que é retratado em Uma Noite de 12 Anos, ótimo filme em cartaz desde a última quinta-feira. Escrito e dirigido pelo realizador uruguaio Álvaro Brechner, o longa é baseado no livro Memorias del Calabozo, escrito por Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernández Huidobro, ex-tupamaros que relataram o cruel confinamento e as torturas que sofreram em prisões militares entre 1973 e 1985, experiência igualmente vivida por José Mujica. Uma Noite de 12 Anos teve sua estreia mundial no recente Festival de Veneza, quando recebeu uma emocionada aclamação do público, que aplaudiu o filme durante 25 minutos. Curiosamente, Mujica esteve presente em dose dupla na prestigiada mostra cinematográfica na Itália: o diretor sérvio Emir Kusturica também exibiu lá seu El Pepe, una Vida Suprema, documentário em que entrevista o popular ex-presidente uruguaio em sua modesta casa nos arrabaldes de Montevidéu.

Coprodução entre Espanha, Argentina, França e UruguaiUma Noite de 12 Anos reúne no excelente elenco alguns dos maiores astros do cinema ibero-sul-americano, como os espanhóis Antonio de la Torre e Sílvia Pérez Cruz, os argentinos Chino Darín e Soledad Villamil e os uruguaios Alfonso Tort, César Troncoso e Mirella Pascual. A partir dos dramas de três prisioneiros do regime, o filme recupera uma das páginas mais sombrias da história recente do Uruguai: em 1973, logo que assumiram o poder, os militares retiraram da cadeia comum nove lideranças tupamaras e as colocaram à parte – o recado ao movimento era que qualquer ação contra o governo seria retaliada com a execução sumária dos detentos. Transformados em reféns, José Mujica (De la Torre), Mauricio Rosencof (Darín) e Eleuterio Fernández Huidobro (Tort) são submetidos a um processo de humilhação e violência que parece sem fim: trancafiados cada qual em uma cela solitária, ficam durante anos sem contato com qualquer outra pessoa que não os carcereiros, sendo periodicamente transferidos de uma prisão para outra. Além de dificultar a localização para uma eventual tentativa de resgate por parte dos companheiros ainda em liberdade, o constante deslocamento dos prisioneiros também tem como objetivo impedi-los de se acomodarem de alguma forma com sua situação e, em decorrência, tirar-lhes qualquer esperança de liberdade e a própria sanidade mental. Dos três protagonistas, Mujica é quem parece estar o mais próximo de enlouquecer diante das condições subumanas do cárcere – que incluem privação de comida, água, sono e luz do sol.

Com o passar do tempo, a rotina de confinamento e mudanças de prisão vai perdendo sentido até mesmo para o aparelho repressor, transformando a infindável via-crúcis de enjaulamentos em locais diferentes em uma situação absurda, cuja única razão de ser aparente é a inércia do status quo militar-burocrático – apropriadamente, o filme começa citando como epígrafe uma frase de Na Colônia Penal, novela de Franz Kafka. Para além do viés político e histórico do episódio que aborda, Uma Noite de 12 Anos realça a lição e o alerta humanista e existencial suscitados por esse martírio: não há crime que justifique impor a um ser humano o tratamento bárbaro reservado a Mujica, Rosencof e Huidobro. Por coincidência, deve entrar em cartaz na semana que vem outro longa sobre a desumanização provocada pelo abandono de presos atrás das grades, igualmente inspirado em fatos reais: Papillon, nova versão do livro de memórias do francês Henri Charrière, cujos revoltantes abusos que sofreu e testemunhou quando esteve detido em uma colônia penal na Guiana Francesa na década de 1930 já tinham virado filme de sucesso em 1973, estrelado por Steve McQueen e Dustin Hoffman.

Hoje, Mauricio Rosencof é romancista, poeta, jornalista e ex-diretor de cultura da prefeitura de Montevidéu. Eleuterio Fernández Huidobro, morto em 2016, foi senador e ministro da Defesa do Uruguai. Pepe Mujica foi presidente entre 2010 e 2015. Uma Noite de 12 Anos mostra como a rejeição à violência e a busca constante pelo diálogo, caracteristicas da atuação pública dos três personagens depois do cárcere, foram forjadas por essa experiência extrema. Ninguém conseguiria emergir desse transtornante mergulho no abismo das trevas da bestialidade humana sem questionar completamente o mundo ao seu redor. Uruguai, Argentina e, em medida mais tímida, Chile vêm tratando nos últimos tempos de acertar as contas com seus respectivos pesadelos autoritários recentes, desagravando as vítimas, identificando e punindo algozes e avançando rumo a uma superação dos anos de chumbo.

No Brasil, essa DR não anda. As culpas não são assumidas, os criminosos não foram julgados e a sociedade finge que o problema está resolvido. Os golpes foram varridos para baixo do tapete. Talvez seja também por conta desse esquecimento, voluntário ou não, que surpreendentemente exista hoje gente por aqui pedindo a volta da ditadura militar – nem que seja pelas urnas! Recomendo especialmente a esses que assistam a Uma Noite de 12 Anos: talvez assim entendam que, ainda ignorando isso, estão na verdade rifando a liberdade individual e coletiva deles mesmos, colocando uma mordaça na própria boca e abrindo mão de serem donos do seu destino. Quem sente saudades da ditadura definitivamente não merece o seu voto.

 

Uma Noite de 12 Anos: * * * *

 

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