Elenco da peça "Tom na Fazenda". Foto: Roger Lerina

Festival Palco Giratório Sesc Porto Alegre traduziu a realidade contemporânea em teatro

A 13ª edição do evento reuniu montagens nacionais e locais que expressaram grandes questões da vida moderna no Brasil e no mundo

Não é nenhuma novidade, mas sempre é um enorme prazer reconfirmar esta constatação: o teatro é a expressão que melhor e mais imediatamente traduz artisticamente nosso tempo. O 13º Palco Giratório Sesc Porto Alegre, encerrado no dia 26 de maio, reafirmou com sua extensa, variada e consistente programação a pertinência das artes cênicas em tempos como os atuais, que convocam a sociedade à reflexão e à crítica. De questões sociais, morais e comportamentais como discussões de gênero, identidade, etnia e classe a discussões políticas mais amplas e mesmo filosóficas, o festival colocou nos palcos da Capital durante mais de 20 dias alguns dos debates e aflições mais candentes dos nossos dias no Brasil e no mundo.

Por falar em angústia, foi frustrante não conseguir assistir a todas as atrações do Palco Giratório que gostaria, tal a qualidade da seleção de espetáculos – não possuo o dom da ubiquidade, lamentavelmente. Mas me entusiasmei com o muito que vi, tanto de montagens nacionais quanto locais. Da permanente atualidade de Shakespeare, comprovada pelo díptico Hamlet (RJ) e Dinamarca (PE), à pertinência da dramaturgia contemporânea vista em Gritos (Brasil-França), Fauna (MG) e Insetos (RJ); da exuberante brasilidade de Suassuna – O Auto do Reino do Sol (RJ) à universalidade das visões do feminino de espetáculos como Quarto 19 (SP) e Segunda Pele (PE) e da homossexualidade em Tom na Fazenda (RJ) e O Jornal – The Rolling Stone (RJ); da vivência da negritude marginalizada em Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens (SP) e Eles Não Usam Tênis Naique (RJ) à ocupação pelo teatro de espaços alternativos como um enorme galpão em O Filho (SP) e as próprias ruas da cidade em Entrepartidas (DF).

Cabe ainda destacar também a atenção para com a produção local, representada pela escalação tanto de produções recentes aclamadas (Medeia Vozes, Prata-Paraíso, Cadarço de Sapato ou Ninguém Está Acima da Redenção, Imobilhados, Ícaro) quanto de peças estreantes (Pequeno Trabalho para Velhos Palhaços, Inimigos na Casa de Bonecas, as duas montagens do texto Tremor).

Longa vida, portanto, ao Festival Palco Giratório Sesc – precisamos como nunca que o teatro siga vigilantemente nos alertando de como a vida é feita de belezas que precisamos multiplicar e misérias que devemos combater.