O escritor norte-americano Philip Roth. Foto: Reprodução

Nelson, Roberto, Alberto, Philip

No espaço de pouco mais de um mês, quatro figuras referenciais da minha formação morreram: Nelson Pereira dos Santos, Roberto Farias, Alberto Dines e Philip Roth

No espaço de pouco mais de um mês, quatro figuras referenciais em diferentes momentos da minha formação morreram: os cineastas Nelson Pereira dos Santos e Roberto Farias, o jornalista Alberto Dines e o escritor Philip Roth – os dois últimos no mesmo dia, 22 de maio. Além da proximidade de datas de seus falecimentos, esses nomes reputados em suas áreas talvez tenham poucas conexões entre si a não ser características de origem social, cultural e étnica – certamente decisivas em suas respectivas trajetórias e visões de mundo: os quatro eram homens brancos heterossexuais, oriundos e/ou porta-vozes de uma certa classe média ilustrada, que viveram ao menos até os 85 anos. Não é minha intenção, a partir desses difusos pontos de contato, fazer alguma ginástica analítica a fim de supervalorizar as eventuais similitudes entre personagens aqui reunidos muito por conta de uma casualidade. Quero tão-somente não desperdiçar a oportunidade de registrar minha gratidão pelo que aprendi com a obra desses senhores, cujas mortes quase encadeadas extrapolam o fortuito e conferem para mim certo significado maior.

Dividindo com a música a centralidade dos meus interesses artísticos, o cinema faz parte dos alicerces da minha compreensão de vida. A chamada sétima arte sempre foi para mim uma ferramenta fundamental de decifração da sociedade, da cultura, da história. Nelson Pereira dos Santos e Roberto Farias, portanto, tiveram relevância destacada na minha estima sob esse aspecto: eles fazem parte da geração de realizadores que colocou o cinema pela primeira vez, de maneira explícita e sistemática, a serviço da reflexão e da crítica ao estado de coisas no Brasil. Retrabalhando influências diversas como o romance regionalista nacional no âmbito da literatura e o neorrealismo italiano em termos cinematográficos, filmes como Rio, 40 Graus (1955), Rio, Zona Norte (1957) e Vidas Secas (1963), de Nelson, e Cidade Ameaçada (1960), Assalto ao Trem Pagador (1962) e Selva Trágica (1963), de Roberto, colocaram na tela as mazelas e contradições brasileiras, abrindo o caminho para o surgimento nos anos seguintes do cinema novo e sua revolucionária estética da fome. Com atuação constante – mas nem sempre bem sucedida – no cinema nacional desde então, ambos permanecem até hoje como referências na briga a favor de uma produção de qualidade artística e contra o cerceamento da liberdade. Nelson, por exemplo, dirigiu títulos como o antológico Memórias do Cárcere (1984), ambientado durante o aprisionamento do escritor Graciliano Ramos na época do Estado Novo, enquanto Roberto – que presidiu entre 1974 e 1978 a estatal Embrafilme, ajudando a produzir dezenas de filmes – rodou Pra Frente Brasil (1982), denúncia da violenta e clandestina repressão a opositores da ditadura, lançado enquanto o regime autoritário ainda vigorava no país.

Já Alberto Dines talvez tenha sido meu primeiro ídolo jornalístico. Tomei contato efetivamente com seu pensamento na faculdade de jornalismo, descobrindo que o autor das colunas cujo texto elegante e inteligente eu apreciava era também um analista crítico e agudo da profissão que almejava um dia exercer. Mais ainda: Dines, soube depois de ler seu seminal livro O Papel do Jornal, virou o ofício de cabeça para baixo por aqui com a reforma gráfica e editorial que promoveu no Jornal do Brasil no começo da década de 1960, tornando-o modelo para os veículos impressos diários no país a partir daí. Seu Observatório da Imprensa, plataforma surgida em 1996, quando a internet ainda engatinhava no Brasil, desdobrou-se em programa de televisão – que eu não perdia nunca –, escrutinando com rigor e neutralidade admiráveis a cobertura da mídia nacional e influenciando o surgimento de espaços de autorreflexação jornalística como o ombudsman, na Folha de S. Paulo.

Por fim, Philip Roth. Trata-se de um dos autores que mais li, cuja prosa vigorosa e ácida me pegou pelas vísceras desde que botei os olhos a primeira vez em um de seus textos. Como o protagonista de O Complexo de Portnoy, livro com o qual o autor norte-americano despontou no cenário da literatura internacional, Roth é capaz de descrever o mundo com realismo e ironia, bafejando o cinismo – sem, no entanto, apequenar sua obra a uma mera fotografia negativa do que enxerga. Ainda que seus personagens principais muitas vezes careçam de caráter e não raro estejam à beira da misantropia, sempre há neles um desejo vital que envolve o leitor, pulsando quase selvagemente em contraponto à hipocrisia da moral burguesa, ao conservadorismo da sociedade, ao consumismo moderno, à histeria politicamente correta. Ninguém emerge sem abalos da leitura de romances como A Marca Humana, Teatro de Sabbath, Pastoral Americana, Homem Comum. Não estou sozinho nesse estremecimento: do inglês Ian McEwan ao brasileiro Michel Laub, alguns dos melhores escritores contemporâneos admitem terem sido tocados também pela "marca rothiana".

Nelson, Roberto, Alberto, Philip: permitam-me a intimidade de tratá-los pelo primeiro nome, mas só deste jeito consigo dizer-lhes com respeito e gratidão "muito obrigado".

 

Originalmente publicado no site Coletiva.net em 25/05/2018