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Foto: Supo Mungam Films/Divugação

A dor de quem sobrevive

Indicado da Hungria a uma vaga ao Oscar de Melhor Filme Internacional, "Aqueles que Ficaram" aproxima uma adolescente e um médico unidos pela tragédia do Holocausto nazista

Sobreviver a uma tragédia terrível não significa necessariamente uma bênção: não raro, a dor e a culpa pelos que não tiveram essa mesma sorte viram uma maldição capaz de atormentar para o resto da existência quem foi poupado da morte. O Holocausto segue matando até hoje: em textos como A Trégua e É Isso um Homem?, o italiano Primo Levi, ex-prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz, escreveu sobre o fardo de ser um dos que escaparam do genocídio nazista – um privilégio excruciante, que o empurrou ao suicídio em 1987. O filme húngaro Aqueles que Ficaram aproxima dois personagens muito diferentes entre si, mas marcados pelo luto interminável dos entes queridos extirpados de suas vidas durante os desastres da Segunda Guerra. Representante da Hungria na disputa por uma vaga entre os finalistas ao Oscar de Melhor Filme Internacional do ano passado, o longa de Barnabás Tóth está disponível no VOD das plataformas NOW e Vivo Play.

A história de Aqueles que Ficaram começa na Budapeste do pós-guerra, em 1948, época em que os comunistas consolidavam-se no poder com apoio dos soviéticos, enquanto o país se reconstruía depois da ocupação alemã. É nesse ambiente dividido entre a esperança socialista de novos tempos e as feridas ainda não cicatrizadas do conflito recém findo que o médico Aldo (Károly Hadjuk) e a adolescente Klára (Abigél Szõke) vão topar um com o outro como se fosse um esbarrão na rua: contrariada, a birrenta órfã é levada pela tia a uma consulta com o sisudo ginecologista. Apesar do espírito inquieto e da beleza incomum da jovem, Klára não chama a atenção de Aldo; no decorrer dos seus encontros seguintes, porém, o reservado homem começa a se interessar pela espontaneidade, rebeldia e inteligência da garota. Logo Klára e Aldo estabelecem entre si uma sintonia que mistura amizade, afeto e confiança, cujo lastro real parece estar relacionado com experiências de perda e pesar: ela espera que o pai um dia volte de algum campo de concentração, para onde teria sido levado com a mãe; ele sofre em silêncio lembrando a mulher e os filhos, mortos pelos nazistas. O médico praticamente adota a estudante, abrigando-a em seu apartamento – e formando assim uma dupla singular, que tem de enfrentar os sentimentos mútuos conflitantes, a desconfiança da sociedade e as turbulências políticas.

Tecnicamente bem cuidado em sua reconstituição histórica, com direção de arte e figurino caprichados, Aqueles que Ficaram é um competente e convencional melodrama de época. A trilha sonora dolente e a fotografia em tons esmaecidos e fechados reiteram o clima melancólico e um tanto claustrofóbico em que vivem e circulam os personagens centrais. Apesar disso, o diretor e roteirista Barnabás Tóth não envereda pelo sentimentalismo desmedido ou o romantismo exacerbado – o registro narrativo mantém-se sempre sóbrio. Essa contenção, porém, não é de todo uma virtude: se evita que a trama descambe para o folhetinesco, também deixa de investir em possibilidades e aspectos que estão colocados em cena, como as pulsões de desejo e morte presentes nos protagonistas e em seu entorno, abordagens que poderiam adensar o filme. No final das contas, a opção por um caminho mais contido – mas não desprovido de emoção – acaba sendo bem sucedida, ainda que não efetivamente empolgante.

Muito do êxito dramático de Aqueles que Ficaram deve-se à conexão entre a dupla protagonista e a qualidade de suas interpretações – especialmente do ator Károly Hadjuk, capaz de comunicar a amargura, o candor e a compaixão de seu personagem apenas com o olhar e poucas reações silentes. Por fim, Aqueles que Ficaram é também um comentário duro e resignado a respeito da situação política na Hungria: a notícia da morte de Stalin escutada no rádio em uma celebração familiar só anima quem é tolo; todos os outros convidados ficam indiferentes à novidade – parecem antecipar que seu destino estará sempre em mãos autoritárias como as da extrema-direita que atualmente governa o país

 

Aqueles que Ficaram: * * *  

 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

 

Assista ao trailer de Aqueles que Ficaram: