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Requiescat in pace, "Homeland"

O escritor Marcelo Carneiro da Cunha comenta "Homeland", série cuja oitava e última temporada está disponível no canal FOX Premium

A dura verdade, estimados leitores, é que as séries, elas acabam.

Somos levados a acreditar, por um desejo gramsciano que vai contra tudo que sabemos, que, de algum jeito, a temporada 3 foi apenas mais uma, que a 4 vai ser ainda melhor e a 312 vai ser interrompida somente por uns instantes pra gente poder assistir à chegada da primeira espaçonave tripulada a Júpiter, mas logo volta.

A dura verdade é que elas vão, vão, vão e aí param, sobrando apenas as repetições que a gente sempre até promete que vai ver, mas não vê, a não ser que seja Friends.
Homeland começou arrasando. A primeira temporada tirou o sossego de muita gente boa, e de outras nem tanto. Aquele ritmo importado de 24 Horas, só que aplicado a uma história com algum significado, na verdade, até que muito significado, foi algo meio que nunca dantes navegado, e a beleza brasileiríssima da Morena Baccarin meio que tirava o fôlego que nos restava, ao final de cada episódio.

Basicamente, os americanos tomaram um baita argumento israelense e o transfomaram em uma baita narrativa americana, como eles tanto gostam de fazer – pegar inteligência e aplicar moldura e verniz. Funciona.

Um soldado americano, preso e desaparecido há anos, é recuperado e retorna como herói. Uma agente da CIA, Carrie Mathison, que sofre de bipolaridade, resolve suspeitar da autenticidade do nosso herói. Ela acha que ele foi plantado de volta e não libertado pra valer, e por aí vamos. Quem é quem, na verdade; quem é o que, e qual o plano, se é que existe um plano.

Ninguém que se preze deixa de curtir um bom mistério, e esse foi sempre o truque de Homeland. Mistérios de sobra e muita velocidade na narrativa, deixando a nós, espectadores, sempre, sempre na curva, sem poder ver direito o que ia acontecendo adiante.

Funcionou tão bem que a série foi re, re, re, renovada para sempre, até se encerrar agora, para tristeza eterna nos nossos corações, ao final da oitava temporada.
Uma coisa que ajuda algo como Homeland a funcionar é o fato de que os Estados Unidos são um vasto império, espalhando intrigas e interesses escusos por boa parte do mundo desconhecido. Ao contrário dos estupendos romances de John Le Carré, que se alimentaram de Guerra Fria enquanto o império soviético não se dissolvia, Homeland preferiu viver dos conflitos em que os americanos se enfiaram desde o 11 de setembro de 2001, em geral para os lados onde os muçulmanos vivem e são maioria.

Isso deu a Homeland o inimigo, e ele usava barba e turbante, o que não deixa de alimentar a xenofobia da direita americana. De certa forma, Homeland viveu de inimigos fáceis de inimigar, o que trouxe energia para a série, mas a tornou um tanto monocromática. Boa parte das temporadas tinha como cenário ruas empoeiradas, muito Kalashnikov atirando em todas as direções, e o mundo árabe, persa, africano e similares. Homeland foi uma série especializada no terceiro mundo árabe-hablante, pode-se dizer.

Carrie nos deu algum insight sobre o sofrimento bipolar, isso enquanto o mundo inteiro não se bipolarizava, como hoje. Carrie é uma ótima agente, péssima mãe, e supre suas questões afetivas com a figura paterna de Saul Berenson, o chefe experiente, envelhecido, mas não amargurado até o ponto de perder a sua humanidade.

A última temporada foi uma boa temporada, com um final que eu, sinceramente, não compro, em particular, porque ninguém, especialmente os russos, compraria. E, para alguma verossimilhança, eles teriam que comprar.

A série abre mão de alguma verossimilhança em troca de rublos e uma desculpa para Carrie ser o que ela é: basicamente, um monstrinho geneticamente modificado pela CIA para fazer exatamente o que dela se espera. O monstrinho existe, está à solta, e não vai mudar, ou pelo menos não para melhor.

Homeland é sobre isso, afinal: nosso desejo de mudar o mundo para que ele continue doido, e a gente nele.

Eu vi, e acho que todo mundo deveria ver. Então, vejam.

As oito temporadas de Homeland estão disponíveis no canal FOX Premium.