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Foto: Pandora Filmes/Divulgação

Acertando as contas com o passado

Filme "O Pai" é um retrato agridoce da vida absurda na Bulgária após o fim do comunismo

O casal de realizadores búlgaros Kristina Grozeva e Petar Valchanov tem se destacado no circuito internacional de festivais de cinema nos últimos anos com ótimos filmes de baixo orçamento, que registram com ironia, amargura e crítica social a vida em seu país após o fim do comunismo. A Lição (2014) e sua sequência, Glory (2016), ganharam vários prêmios em certames como os de San Sebastián, Tóquio, Locarno, Gotemburgo, Varsóvia e Edimburgo. Os títulos fazem parte da chamada “Trilogia de Recortes de Jornal”, inspirada em notícias que retratam o absurdo do cotidiano búlgaro. O mais novo integrante desse panorama da Bulgária contemporânea é O Pai (2019), que deveria chegar aos cinemas brasileiros em março – porém, devido à pandemia de Covid-19, a distribuidora decidiu lançar o filme diretamente na plataforma digital Belas Artes à la Carte. Também está disponível um pacote promocional em que se pode assistir aos três longas da dupla de cineastas.

O Pai é baseado em uma história real, ocorrida na família dos diretores, roteiristas e produtores. “Depois do funeral da mãe de um parente, um vizinho apareceu apavorado e disse: ‘Sua mãe está me ligando!’. Olhamos o telefone e vimos o nome, a data e o horário da ligação. Ele disse que a ligação ocorrera há dois minutos, sendo que ela tinha sido enterrada três horas antes. Ficamos impressionados e começamos a acreditar que era uma situação sobrenatural. Talvez ela quisesse entrar em contato conosco e dizer algo, mas, depois de alguns minutos, descobrimos uma razão lógica para aquilo ter acontecido, o que nos motivou a escrever a trama do filme”, conta Kristina.

Alternando episódios cômicos com momentos melancólicos e reflexivos, o filme conta a história de Vasil (o ótimo Ivan Savov, ator que trabalhou também nos outros longas do casal), que acaba de perder a esposa. O funeral da mãe leva o publicitário Pavel (Ivan Barnev) a reencontrar o pai em sua aldeia – a relação entre os dois é pouco mais do que meramente formal. Aturdido com a morte de Valentina, o velho pintor começa a agir estranhamente – e, depois de uma tia afirmar que a falecida ligou para seu celular, Vasil procura a ajuda de um famoso médium para entrar em contato com a mulher morta. Tem início então uma série de peripécias envolvendo o teimoso e um tanto alucinado Vasil e seu aturdido filho Pavel, às voltas tanto com o pai fujão quanto com as cobranças pelo telefone da caprichosa esposa grávida e de seu assistente de trabalho.

Em clave agridoce, O Pai coloca dois personagens obrigados a encontrarem um ponto comum em meio a tantas diferenças – ambos enfrentando, cada um a seu modo, as dores da perda e da culpa que sentem. Kristina Grozeva e Petar Valchanov constroem, entre risos e lamentos, um drama familiar íntimo sobre as dificuldades de conectar-se mesmo com aqueles que nos são próximos. Mas O Pai também pinta uma alegoria do desamparo político-social da Bulgária: entregue a lembranças de um passado idealizado, Vasil representa a velha sociedade que viu o socialismo desmanchar-se no ar sem que nada muito concreto tenha surgido em seu lugar; já Pavel é a nova geração, que não se conecta à memória do antigo regime, mas também não consegue se encaixar na nova ordem. No final do dia, a medida de tudo em O Pai é a ausência da mãe.

 

O Pai: * * *  

 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

 

Assista ao trailer de O Pai: