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A boa luta

O escritor Marcelo Carneiro da Cunha comenta a série de tribunal "The Good Fight", spin off de "The Good Wife" disponível no Amazon Prime Video, sobre os bastidores jurídicos na Chicago dos anos Trump

Em uma democracia, as coisas são assim: o povo vai lá e vota, e quem ganhar leva. Só que, às vezes, o povo vai lá e vota na pior escolha possível, e as consequências são trágicas pra todos, não apenas pra quem elegeu, mas especialmente para os que viram que o candidato vencedor não passava de uma fraude. Acontece.

E a série americana que acompanha os anos Trump de perto, uma versão presidencial de Tiger King, se chama The Good Fight, feita para o canal de streaming da CBS – no Brasil, disponível pelo Amazon Prime Video.

The Good Fight é um spin off de The Good Wife, a ótima série sobre uma mulher traída que resolve virar o jogo e cria todo um novo tipo de jogo. Quem ainda não viu, ela se encerrou em 2016 e mostrou do que era feita a bela Julianna Margulies.

The Good Fight também é uma série de mulheres, com a ótima Christine Baranski arrebentando tudo a partir de 2017 e da posse de Hillary, que não houve. Ano a ano, e já estamos na quarta temporada, a série usa como suporte, e cenário, os abomináveis anos Trump, e o resultado é uma bela narrativa do que acontece em um mundo onde o bizarro se torna o novo normal. Qualquer semelhança com o Brasil de 2018 é muito mais do que mera coincidência, naturalmente.

A construção narrativa é esquemática e muito, mas muito competente. Ao fundo, os anos Trump e o que isso singifica para um país orgulhoso, mas cada vez menos, de sua tradição democrática. Em um outro fundo, o mundo das disputas jurídicas de uma Chicago tão opulenta quando disfuncional, um quadro dos Estados Unidos contemporâneo. Em outro plano, os advogados, sócios, ou ainda não, de um grande escritório predominante formado por negros, com tudo que vem junto, na cidade para onde os escravos do sul americano fugiam, quando podiam, onde surgiu o blues, e onde os negros ainda ocupam guetos, no South Side, e onde a mortalidade das lutas de gangues espanta um país acostumado a massacres diários, muitos deles em escolas.

A fórmula é assim: cada episódio é centrado em algum caso que o escritório esteja envolvido, e somos apresentados a personagens muito, mas muito atraentes, para o bem e para o mal. Enquanto o caso em questão representa o momento, e ele muda quase que a cada episódio, o cenário de fundo se desloca ao longo da temporada. Com a sobreposição desses elementos, temos uma série de construção clássica, em cima de um presente nada clássico, mas atual. Funcionou em The Good Wife, que veio da cultura da tevê aberta (sexo somente insinuado, e nus, nem traseiros), e funcionou, porque funciona, há décadas.

Americanos sabem contar um bom drama jurídico como ninguém neste mundo, e The Good Fight aproveita bem demais o pano de fundo trumpiano, a pesada mão da política no judiciário americano, e em especial em Chicago, o jogo pra lá de abusivo da politica partidária deles, a tensão racial e de gênero, em uma sociedade que praticamente vive da tensão que ela mesmo cria, continuamente, e administra logo antes de ela se tornar explosiva demais.

A dúvida é se, finalmente, eles foram longe demais. Eu acho que ainda não, mas o jogo ainda está sendo jogado, e The Good Fight é exatamente sobre isso.

Eu vejo e, se fosse vocês, veria.