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Foto: Nathan West/Divulgação

Três (ou mais) perguntas para Alexia Bomtempo

Cantora e compositora brasileira radicada em Nova York fala sobre seu quarto disco, "Suspiro", em que mistura jazz, samba e bossa nova. O álbum foi lançado nos EUA e na América do Sul

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A cantora e compositora Alexia Bomtempo acaba de lançar o ótimo disco Suspiro. Morando em Nova York há quase uma década, a intérprete retorna às raízes da MPB e continua sua exploração pela música norte-americana em seu quarto álbum de estúdio – lançado nos EUA pelo selo Ropeadope e na América do Sul via LAB 344.

Gravado no Brooklyn, o disco conta com as participações do trompetista de jazz e multi-instrumentista Michael Leonhart (Steely Dan, Mark Ronson), do pianista Vitor Gonçalves (Maria Bethânia, Hermeto Pascoal) e do guitarrista Guilherme Monteiro (Gal Costa, Bebel Gilberto). No trabalho anterior, o elogiado I Just Happen to Be Here (2012), Alexia recriou canções que Caetano Veloso escreveu em inglês, entre 1969 e 1972.

Nesta entrevista exclusiva, Alexia fala de Suspiro, de influências musicais como João Donato e da repercussão da música brasileira no Exterior.

 

Suspiro tem canções novas e regravações, músicas em português, inglês e francês, parcerias suas e composições de outros autores. Como foi feita a escolha do repertório?

A escolha do repertório foi feita de forma colaborativa entre o Stéphane San Juan, o Jake Owen (produtores do disco) e eu. A gente já tinha o conceito do álbum, que era mergulhar no universo do samba-bossa-jazz dos anos 1960 e 1970, mas com um toque contemporâneo. A ideia era buscar releituras menos óbvias, pouco conhecidas e mesclar com músicas autorais – minhas e de outros compositores atuais. Demos início à essa pesquisa e fomos trocando várias ideias… O Stéphane sugeriu Eles Querem Amar, eu lembrei de I’m in Love Again, o Jake fez a letra de Evergreen (uma melodia minha que estava na gaveta há algum tempo). O Stéphane estava passando uns dias no Rio nessa época e pediu músicas inéditas ao Alberto Continentino e ao Domenico Lancellotti – e eles nos presentearam com essas canções lindas.

 

O disco trafega com elegância e fluidez entre o jazz, a bossa nova e o samba, atualizando sonoridades dos anos 1960 e 1970. Trata-se de um trabalho bem diferente de seu disco anterior, Chasing Storms and Stars, que soava mais pop. Comente sobre a produção, os arranjos e os músicos que participaram de Suspiro, por favor.

O Stéphane é um músico muito plural e tem toda uma história com o samba-jazz que se misturou de uma forma interessante com a formação musical do Jake, mais focada no jazz e no blues. A ideia era fazer o disco “como se fazia antigamente” – gravamos tudo ao vivo, com os músicos tocando ao mesmo tempo. Convocamos o pianista Vitor Gonçalves e o baixista Eduardo Belo (ambos brasileiros radicados em Nova York), e eles foram fundamentais nos arranjos, que foram feitos na hora, tipo banda, sem muito ensaio. O Vitor e o Eduardo são músicos talentosíssimos, de uma profundidade extraordinária, mestres do jazz, do samba, da bossa… Eles já vinham tocando juntos no trio do Stéphane, então já existia um entrosamento, uma confiança e muita leveza. Eu amei fazer um disco assim, com essa liberdade. Gravamos no SuperLegal Studio (do Jake e do percussionista Mauro Refosco), que fica no Brooklyn, e, jácom as bases prontas, convidamos o trompetista Michael Leonhart para participar. Ele tem muito bom gosto, um conhecimento musical fantástico e é apaixonado por bossa nova. Foi muito bonito observar ele tocando e fazendo escolhas. Também chamamos o guitarrista Guilherme Monteiro para participar da faixa Les Chansons d’Amour e ele fez o arranjo no violão rapidamente, de uma forma muito natural – foi emocionante. Sou muito grata a esses músicos (e amigos) e sinto que o disco é tão meu quanto deles.

 

Entre as referências do álbum, João Donato é um dos que mais se destaca. Apesar de composta por Domenico Lancellotti e Bruno Di Lullo, a música Serpente tem o suingue e a estrutura característicos do compositor acriano – e ainda por cima é seguida de uma versão cool da donatiana Fim de Sonho. Qual é a importância do mestre no seu trabalho?

O toque do Donato está de fato muito presente no álbum! Acredito que não apenas por minha admiração pelo mestre, mas também pela influência que ele carrega sobre os músicos e compositores de Suspiro. Não há como pensar nesse movimento bossa-jazz dos anos 1960 e não celebrar a importância de João Donato. Ele está lá, presente em tantos discos que apresentaram a nossa música pro mundo. A obra dele é a trilha sonora da minha vida, e Fim de Sonho é uma homenagem a tudo que ele representa para nós, devotos de Donato.  

 

Por falar em citações, duas das músicas revisitadas no seu álbum foram gravadas antes por grandes cantoras: Eles Querem Amar, por Claudette Soares, e (I'm) In Love Again, de Peggy Lee – também uma das compositoras do tema. Quem são suas vozes favoritas?

São tantas… Adoro as cantoras e os cantores de jazz americanos – Dinah Washington, Blossom Dearie, Chet Baker, Tony Bennett. Do Brasil eu amo a Doris Monteiro, Gal Costa, Milton Nascimento e João Gilberto, claro. Em termos de vozes mais contemporâneas, gosto muito da Tulipa Ruiz, Roberta Sá, José González e Salvador Sobral.

 

Você mora em Nova York há bastante tempo e viaja pelo mundo se apresentando em lugares como Tóquio, onde ficou cantando por uma longa temporada. A música brasileira continua sendo muito prestigiada pelo público e pelos músicos estrangeiros?

Se tem uma coisa do Brasil que continua de vento em popa mundo afora é a música. Sinto uma receptividade surpreendente. A música brasileira é muito respeitada pelo público, pelos músicos de jazz e pelas instituições culturais e de ensino. Todos os departamentos de jazz das faculdades nos Estados Unidos dedicam uma boa parte do programa à bossa nova. Acredito que o Japão seja o lugar de maior admiração pela música brasileira – talvez tenha a ver com a natureza do povo japonês, de respeitar aquilo que é feito a mão, de se aprofundar nos detalhes e apreciar as sutilezas da vida. A nossa música, principalmente a bossa nova, é muito assim… Artesanal, leve, delicada.

 

Por falar em mercado da música, ele mudou radicalmente nos últimos anos graças a transformações trazidas pela internet e as novas mídias, que redimensionaram o papel de atores tradicionais desse meio, como as gravadoras e as rádios. Como ficou o cenário agora para os músicos com a atual pandemia do novo coronavírus, que acabou também com os shows presenciais ao vivo?

Acredito que todos nós estamos tentando entender (rapidamente) esse novo cenário nos tempos de pandemia – não só em termos artísticos e tecnológicos, mas também técnicos, principalmente em se tratando de música. Eu acho essencial que os músicos ainda demonstrem um cuidado com o som do que estamos soltando nas redes e vejo esse movimento por aqui – muita gente está tentando aprender a utilizar novos programas e softwares que possam resultar numa transmissão melhor, de mais qualidade, como seria num show ao vivo. As lives são muito bacanas. Vejo como uma oportunidade de me sentir conectada e também de trazer conforto, proporcionar uma válvula de escape para as pessoas nesse cenário tão desconcertante e incerto. A verdade é que ninguém sabe quando vamos estar fazendo shows presenciais ao vivo novamente. A internet oferece esse aconchego, mas nunca vai substituir a troca de energia que acontece no palco.