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A bailarina Dani Dutra em vídeo do grupo Macarenando. Foto: Reprodução

Dançando para não dançar

Profissionais da dança enfrentam as limitações impostas pela pandemia e criam alternativas

por Ricardo Romanoff

Os cancelamentos de espetáculos, aulas e oficinas agravam um cenário de dificuldades conhecido de longa data pelos profissionais da dança. Em meio à crise, artistas e professores se deparam com as limitações impostas pela pandemia e criam alternativas. A principal delas é a utilização de vídeos no ambiente digital para apresentar propostas e dialogar com alunos, colegas e o público. A estratégia não foi inventada agora – as relações entre dança e vídeo são exploradas há décadas nas práticas e reflexões de diversos profissionais da área –, mas ganha novo fôlego diante das restrições a encontros presenciais.

A crise da Covid-19 evidencia fragilidades e falta de apoio

Artista de dança e performer, Alexandra Dias faria a estreia de CÃES, espetáculo dirigido por ela, no dia 18 de março, na Casa de Cultura Mario Quintana. Trabalho inaugural da companhia OUTRO Danças, com sede em Pelotas, a montagem foi mais uma entre tantas canceladas devido à pandemia. “Inevitavelmente, o trabalho que criamos vai se transformar, para o bem e para o mal, em razão da nova realidade que a Covid-19 está nos impondo. Apesar da minha frustração inicial, fico imaginando os caminhos que iremos tomar, enquanto grupo, quando estivermos juntos novamente em processo de criação”, conta a diretora, que não cogita adaptar CÃES para um formato não presencial. 

Diante do cenário de paralisações, Alexandra destaca a importância da mobilização de profissionais e entidades de classe, já que “alguns membros da companhia, bem como vários artistas do Brasil, estão vivendo uma situação precária em termos financeiros e sociais e não se sentem assistidos pelos programas oferecidos pelo governo até agora”. “Mais do que nos preocuparmos com uma nova data para a apresentação do trabalho, estamos nos voltando para um momento de cuidado coletivo”, completa.

Na Capital, o coreógrafo Diego Mac conta que o grupo Macarenando Dance Concept, dirigido por ele, teve uma série de espetáculos e atividades adiados por conta do novo coronavírus, com destaque para o projeto de terror imersivo Casa do Medo – principal pilar financeiro do grupo –, que seria realizado entre os meses de março e maio. “Além dele, foram adiados também o projeto Dance a Cena, em parceria com o Instituto Ling; a Virada Sustentável e a Noite dos Museus, projetos nos quais a Macarenando participaria com a performance MASH; a Oficina Permanente de Criação em Dança; o projeto Pimp My Drag, workshop para drag queens ministrado por Cassandra Calabouço; e a criação e produção do nosso novo espetáculo”, conta Mac.

A pandemia também interrompeu projetos do coreógrafo Eduardo Severino. Ele conta que havia recém-lançado a campanha de financiamento coletivo para a produção do espetáculo Macho Homem Frágil, desenvolvido com a coreógrafa Eva Schul. “Dentro do possível, tenho trabalhado em casa, mesmo sem um espaço adequado”, diz Severino, que também aguarda a liberação de recursos do Fumproarte de 2016 para viabilizar a realização de Beijo.

“Tenho pensado, faz algum tempo, em mudar a lógica de utilizar salas de espetáculos e ter que passar por editais de ocupação, para ridículas temporadas de dois dias. Além disso, normalmente a bilheteria não paga os artistas envolvidos, o que me desestimula cada vez mais a querer mostrar meu trabalho dentro desse formato”, conta Severino. O coreógrafo ressalta que sua produção diminuiu nos últimos anos devido à perda de “muitos financiamentos para atividade cultural e à pouca disposição dos agentes públicos em disponibilizar novos financiamentos para fomentar as produções”.

Gaúcho radicado em Buenos Aires, o artista de dança e professor de Técnica Alexander Michel Capeletti teve que adiar uma temporada de dois meses, prevista para começar em abril, e aguarda definições para a estreia de um espetáculo que vai dirigir, a princípio, em agosto. Com as aulas presenciais canceladas, ele mantém parte das atividades online. “Vejo muita potência nas aulas e processos que mantenho. Vem sendo fascinante o que se habilita de maneira virtual, o que obviamente não substitui o que se tem em salas de ensaio, porque é outra experiência, com outros recursos”, conta.

Capeletti vai divulgar em breve o registro do espetáculo solo Enquanto as Coisas Não se Completam, que estreou em Porto Alegre em 2016. A publicação online tem como objetivo oferecer apoio a um espaço independente de Buenos Aires. Ele conta que, apesar das dificuldades, encontra algum conforto nas medidas que o governo federal argentino vem adotando. “Aqui na Argentina, ainda que as condições de trabalho sejam complexas para os profissionais de dança, existe um suporte, existem ações concretas que o governo está trazendo a público todos os dias. Também existe muita mobilização. Não sei quando vou voltar a trabalhar, e isso é assustador, mas é completamente diferente a sensação de atravessar todo esse momento com um governo que está buscando soluções e estratégias”, conta.

O bailarino e performer Alessandro Rivellino teve sua agenda de oficinas, residências e festivais cancelada até setembro. Uma dessas atividades, um workshop promovido pela prefeitura de Porto Alegre, previsto para o mês de abril, acabou se tornando uma videoaula – confira aqui – gravada durante o período de isolamento. Rivellino tem passado a quarentena em Maquiné (RS), ocupando-se da rotina em meio à natureza, realizando práticas corpóreas e escrevendo em seu blog.

“Sempre fomos sobreviventes, nunca tivemos o suporte devido. O mainstream é pra poucos, e nós somos muitos e vamos em direções diversas”, observa Rivellino. Diante das alternativas que surgem entre os profissionais da dança para enfrentar o isolamento, o bailarino entende que é importante refletir sobre o momento atual: “Não gostaria de esquecer que é um luto, de alguma forma, e que a vida é feita dos encontros presenciais. Ao mesmo tempo, é preciso encarar isso como um momento de trânsito em que se pode abraçar novas formas de ser e estar”.

Dança nas telas

O uso do vídeo como suporte e linguagem que se mescla à dança é um terreno fértil de práticas e reflexões de artistas, pesquisadores e professores. “Essas produções têm borrado questões pertinentes à dança e à relação entre espectador e obra, tais como presença e ausência, memória e esquecimento, duração e reprodutibilidade”, explica o pesquisador Fellipe Resende, que é mestre e doutorando em Artes Cênicas pela UFRGS. “A natureza digital da dança em vídeo implica ainda uma relação de apreciação da obra que é própria dela, bem como um espaço e tempo diferentes, quando comparados aos da dimensão presencial, efêmera e não repetível do espetáculo ao vivo”, completa.

Em abril deste ano, ao lado do pesquisador Daniel Aires, também mestre e doutorando em Artes Cênicas pela UFRGS, Resende desenvolveu um levantamento de produções audiovisuais em dança publicadas em plataformas online e redes sociais. Por meio de um questionário online, mais de 25 artistas, gestores e professores de dança, atuantes em cidades do Estado – e um em Bogotá, capital da Colômbia –, compartilharam apontamentos sobre seus processos de criação para o ambiente digital.

Os pesquisadores vinham observando a presença massiva de produções audiovisuais em dança antes mesmo da pandemia. “Plataformas abertas e fechadas estavam e continuam sendo palco de um número crescente de videoaulas, stories, lives, videodanças, vídeos de ensaios ou coreografias segundo tutoriais e desafios (challenges) em redes como TikTok, Facebook e Instagram”, explicam Resende e Aires.

A dupla agora estuda formas de compartilhar as reflexões que surgiram na investigação, para além da academia, em diálogo com artistas e o público interessado. Os pesquisadores apontam que os criadores buscam se apropriar das especificidades do suporte e, com frequência, distribuem os vídeos em mais de uma rede ou plataforma, com diferentes estratégias de relacionamento e interação.

Atualmente, além de conduzir a pesquisa, Resende desenvolve um projeto que une dança e audiovisual com os demais integrantes da Cubo1 Cia de Arte. “O roteiro de criação – com questões disparadoras, trilha, figurino e diretrizes para as captações em vídeo de cada bailarino – é pensado em coletivo, via WhatsApp, e o material construído em vídeo é então unido e passa por edição. Traços que disparam essas danças partem da situação de isolamento social vivenciada na quarentena, bem como das relações que criamos ou ressignificamos com os cômodos de nossas casas”, conta.

Aulas adaptadas e a poética da ausência

A Escola e Companhia de Flamenco Del Puerto tem realizado aulas ao vivo e conversas online com as professoras Daniele Zill e Juliana Prestes, utilizando Facebook e Skype como plataformas. Nas lives da Del Puerto, o foco é o flamenco no talo e o estudo da linguagem e da cultura flamenca. Também foram gravadas aulas EAD (educação a distância), compartilhadas por links privados do YouTube, além de atividades complementares enviadas pelas redes sociais. “Temos encontrado não somente uma ressignificação para a troca de conhecimento entre professoras e alunos, como também deparado com uma potente rede de afeto e cuidados”, conta Zill.

A bailaora explica que a guinada digital exige adaptações. “Estar em tela e ‘tele’ ainda me causa certa estranheza. Acho que o impacto das ausências provoca isso. Por outro lado, do ponto de vista das dinâmicas que emergem a partir desse contexto virtual, penso estarmos vivendo o ápice de uma revolução, que já vinha se desenhando desde meados dos anos 2000. Penso que há uma nova poética se firmando entre nós, a da ausência, e uma nova estética e ética”, completa.

Diretora do Centro de Danças Integradas que leva seu nome, a bailarina Naira Nawroski conta que o processo de aulas online tem sido um aprendizado. Tão logo tiveram suas atividades interrompidas em 14 de março, os professores da escola passaram a buscar caminhos para manter o contato com os alunos. “Na primeira semana de abril, gravamos vídeos de exercícios em casa e enviamos para os grupos de alunos no WhatsApp. Nesse meio tempo começamos a estudar as plataformas online, entre elas Skype, Google Hangouts e Zoom. Cada professor foi se adaptando a uma e verificando como ficava o melhor acesso com sua internet em casa”, conta Nawroski.

A bailarina e professora explica que o maior desafio são as aulas para crianças, que dependem de uma interação maior para desenvolver suas habilidades motoras e cognitivas. Entre os adultos, ela destaca “o quanto a energia deles passou a ser de amar o corpo e a saúde acima de qualquer outra beleza estética”. “Acredito que quando as pessoas puderem se unir em grupos novamente, a energia dos corpos será outra. O olhar para o outro será de afeto e agradecimento”, completa.

Uma ferramenta para democratização e formação de público

O coreógrafo Diego Mac explora as relações entre dança e linguagem videográfica desde 2005, incluindo uma dissertação de mestrado que abordou as conexões entre imagem e movimento e propostas desenvolvidas no grupo Macarenando. “Para nós é importante um entendimento amplo do que é e do que pode a linguagem videográfica, em geral, e nos ambientes virtuais, em específico, como a democratização da dança cênica e a formação de público, mais do que ser apenas um suporte para mostrar dança na tela”, defende Mac. 

Um dos projetos atuais do Macarenando é o Vídeo Dance a Letra – versão audiovisual para web de Dance a Letra, um dos carros-chefe do grupo desde 2015 –, que explora gestos literais para interpretar músicas brasileiras de forma bem-humorada. O projeto está inserido na iniciativa Presença Digital, desenvolvida desde 2017 pelo Macarenando e que reúne uma série de projetos em formato digital. Em meio à pandemia, além do Vídeo Dance a Letra, o Macarenando também tem feito uma série de lives no Instagram com diferentes temáticas.

“Todo o nosso trabalho de criação, produção, distribuição e comunicação tem sido realizado online e em home office – o que não é nenhuma novidade para as 14 pessoas que integram o grupo. A diferença agora é o volume que esse projeto e esse tipo de trabalho ocupam na nossa rotina: praticamente 100% do nosso foco está no Presença Digital e em mecanismos online e digitais de produção, criação e comunicação”, conta Mac.

O coreógrafo entende que a pandemia catalisou uma busca acelerada dos profissionais da dança em relação ao uso do vídeo e à digitalização de processos artísticos. Mac pondera que essa corrida pode gerar impactos como a exclusão de artistas que não têm acesso às tecnologias necessárias e a criação de propostas “ingênuas e atrapalhadas”. “É necessário entender o vídeo e a internet como eles são, e não como eu gostaria que fossem. Não é a mesma dança, não é o mesmo corpo, não é o mesmo movimento, não é o mesmo processo, não é o mesmo resultado. Tudo é diferente. Portanto, é preciso considerar o universo de produção técnica e de sentido dessas novas linguagens, em sua relação com a dança, em todas as dimensões: da criação à distribuição e comercialização”, explica.

Marcas nas corporeidades

As medidas de isolamento ensejam reflexões sobre os nossos corpos e relações que extrapolam o contexto da dança como atividade de artistas e professores. “O isolamento permite uma possibilidade de autoconhecimento e de descoberta do corpo. Acredito que, na grande maioria, estamos valorizando muito mais as coisas simples, de como é bom ter a liberdade de ir e vir, de como somos micros e frágeis. Ou seja, todo aquele culto ao corpo, do corpo jovem eternamente, de padrões e padrões de beleza, consumismo extremo, nada significam diante de algo assim”, observa Eduardo Severino.

Fellipe Resende acredita que “carregaremos marcas deste tempo em nossas corporeidades”, que podem resultar em “um senso mais aguçado de sobrevivência”. “Talvez ganhemos, de forma otimista, ‘mais repertório’ para as lutas já travadas, porém ainda perderemos muito, e muitos. Num cenário desfavorável, onde o escanteio dos artistas, cientistas e professores é recorrente, ser suporte aos nossos pares, e a nós mesmos, pode ser a forma de difundir nossos afetos, de ampliar nossas redes de suporte, de resistir… E seguir em movimento”, completa.

Michel Capeletti acredita que a dança pode contribuir na construção de estratégias sensíveis para enfrentar a situação extrema da pandemia e desenvolver novas formas de relação: “Esse espaço de sensibilidade não se relaciona somente como um fazer cênico, com espetáculos de dança, mas sim com o desejo de me ver afetado, questionando e articulando redes de cuidado. Sem contato por um tempo, mas em relação. Tudo isso é dança, e pode se potencializar como aprendizado”.

 

Acompanhe os vídeos do Macarenando Dance Concept no Instagram do grupo

Confira uma videoaula de Alessandro Rivellino

Assista à aula de técnica básica de castanhola da Escola e Companhia de Flamenco Del Puerto 

Siga o perfil de Instagram da bailaora Daniele Zill

Veja os posts do Centro de Danças Integradas Naira Nawroski

 

E ainda:

Veja a lista elaborada pelo jornal O Globo de espetáculos de dança, de Bolshoi a Pina Bausch, para ver de casa

Confira a matéria do Jornal do Almoço sobre uma coreografia criada por brasileiros que se popularizou na internet

Assista ao vídeo do Ballet Nacional da Espanhã e seu #ChallengeDanza

 

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