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Foto: Califórnia Filmes/Divulgação

Quando os mortos-vivos falam

Filme "Zombi Child" (2019) chama atenção pela visão decolonialista do tema, apresentando o vodu não apenas como macabro exotismo, mas antes a ancestral manifestação de resistência de um povo

O zumbi é uma figura recorrente no horror moderno, tendo se tornado talvez o monstro mais querido da cultura pop atual. Desde o clássico A Noite dos Mortos-Vivos (1968), de George A. Romero, essas criaturas se arrastam pelas telas dos cinemas e das TVs espalhando não apenas terror, mas também servindo muitas vezes como pretexto para crítica social e política ou estopim de questionamentos éticos e existenciais. Curiosamente, as origens históricas e culturais do vodu no Caribe e suas práticas pouco têm frequentado filmes e séries hoje em dia, a despeito da potencial riqueza narrativa dessa fonte. Foi justamente por recuperar os aspectos antropológicos e místicos dessa fascinante tradição religiosa que o cineasta e roteirista Bertrand Bonello conseguiu em seu mais recente filme revisitar com frescor um subgênero já tão batido: exibido no Festival de Cannes do ano passado, Zombi Child (2019) chamou atenção pela visão decolonialista do tema, apresentando-o não apenas como macabro exotismo, mas antes a ancestral manifestação de resistência de um povo. Previsto para estrear nos cinemas brasileiros em 26 de março, por conta da pandemia do Covid-19 o longa foi lançado há pouco diretamente nas plataformas digitais iTunes, Google Play, YouTube, Vivo Play e NOW.

O roteiro de Zombi Child toma como base o caso de Clairvius Narcisse, descrito pelo antropólogo e etnobotânico colombiano-canadense Wade Davis no livro A Serpente e o Arco-Íris (1985). O trabalho foi resultado de uma pesquisa realizada pelo cientista, que passou três anos no Haiti estudando o vodu e a zumbificação por meio de plantas e ervas psicoativas. Em 1962, Narcisse teria sido envenenado, supostamente morrido e em seguida enterrado. Na mesma noite, o homem foi retirado do caixão por um bokor (tipo de feiticeiro vodu) e em seu torpor levado para trabalhar como escravo durante anos em plantações de cana-de-açúcar no norte do país, aparentemente como um “morto-vivo”. Em 1980, conseguiu escapar e reencontrar a família, morrendo – aí de verdade – em 1992.

A partir dessa surpreendente história verídica, o diretor Bonello cria uma trama ficcional que se desenvolve paralelamente e em conexão com a estranha trajetória do mais famoso zumbi da vida real: em uma escola de elite de moças na Paris contemporânea, reservada a filhas de personalidades distinguidas com a Legião de Honra francesa, a adolescente haitiana Mélissa (Wislanda Louimat) convive apenas com jovens brancas como Fanny (Louise Labeque). Já a menina francesa reconhece na colega que saiu do Haiti depois do terremoto destruidor de 2010 uma dificuldade de socialização semelhante a que ela própria enfrenta, aproximando-se então de Mélissa. Quando é rejeitada pelo namorado às vésperas de um reencontro, Fanny desespera-se e busca a tia com quem Mélissa mora na capital francesa, uma professora particular que também é sacerdotisa vodu, a fim de recuperar o amado por intermédio de feitiçaria.

Diretor de títulos interessantes como Tirésia (2003), L'Apollonide: Os Amores da Casa de Tolerância (2011) e Saint Laurent (2014), Bonello brinca em Zombi Child com as convenções do filme de horror ao mostrar colegiais temerariamente desafiando o proibido e mexendo com sexo e sobrenatural. Menos do que um flerte com o cinema de entretenimento, porém, essas alusões servem mais ao propósito de realçar por contraste o tema que realmente interessa ao realizador abordar: a potência anímica primitiva da cultura do explorado opondo-se ao projeto iluminista insuficiente do colonizador – uma dicotomia ilustrada por cenas como a do começo do filme em que o professor de história pergunta às alunas: “A França esteve à altura dos ideais da revolução que conduziu?”. Diferentemente dos zumbis hollywoodianos, que estão mortos, seus pares haitianos estão suspensos em algum lugar entre a vida e a morte. É nessa brincadeira com os clichês que Zombi Child proporciona o momento quem sabe mais impressionante do filme – aquele em que Mélissa, com a câmera fechada em seu altivo e belo rosto iluminado por velas, diz para as assombradas companheiras em volta de uma secreta reunião noturna alguns versos do poema Cap’tain Zombi, do escritor haitiano René Depestre:

Escute, mundo branco,
Os gritos de nossos mortos
Escute minha voz de zumbi
Que honra os nossos mortos
Escute, mundo branco,
Meu tufão de feras selvagens
Meu sangue rasgado pela tristeza
Por todos os caminhos do mundo
Escute, mundo branco!

 

Zombi Child: * * * *  

 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

 

Assista ao trailer de Zombi Child: