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Foto: Victor Jucá/Divulgação

Todo Carnaval tem seu fim

Diretor e roteirista Hilton Lacerda narra em "Fim de Festa" uma história sobre a ressaca política, cultural e existencial

A elogiada qualidade do cinema contemporâneo feito no Nordeste não é mérito apenas de realizadores, atores e atrizes. Também roteiristas, diretores de fotografia e montadores, entre outros profissionais do audiovisual, têm contribuído em muito para que produções da região – especialmente pernambucanas, cearenses, paraibanas e baianas – estejam entre as melhores rodadas no Brasil desde o final do século passado. O recifense Hilton Lacerda é um desses nomes: roteirista de quase duas dezenas de filmes de ficção – como Baile Perfumado (1997), Amarelo Manga (2002), Baixio das Bestas (2006), Árido Movie (2006), A Festa da Menina Morta (2008) e Febre do Rato (2012) –, o recifense lançou-se na direção com Cartola – Música para os Olhos (2007, codirigido com Lírio Ferreira) e depois foi premiado por Tatuagem (2013), vencedor do Kikito de melhor longa no Festival de Gramado. Seu mais recente trabalho, Fim de Festa (2019), ganhou os prêmios de melhor filme e roteiro na última edição do Festival do Rio e entrou em cartaz nos cinemas no começo de março – mas sua carreira nas salas de exibição foi interrompida logo por conta da pandemia do Covid-19. A partir desta sexta-feira (1º/5), Fim de Festa estará disponível nas plataformas de streaming.

Fim de Festa conta ainda com direção de fotografia de Ivo Lopes Araújo, montagem de Mair Tavares e Pedro Queiroz e música do DJ Dolores – nomes presentes nas fichas técnicas dos melhores filmes nordestinos recentes. Hilton Lacerda se inspirou em um episódio da crônica policial para narrar sua história sobre a ressaca política, cultural e existencial que o país vem enfrentando depois da ascensão ao poder do conservadorismo antirracional de direita. Irandhir Santos é o protagonista desse retrato da melancolia tropical, encarnando um policial encarregado de desvendar o assassinato de uma turista francesa durante o Carnaval de Recife. Ao mesmo tempo em que investiga o crime interrogando a família de Emma – o jovem viúvo brasileiro (Ariclenes Barroso, de O Animal Cordial), a mãe do rapaz (Suzy Lopes, de Bacurau) e o padrasto francês dele (interpretado por Jean Thomas Bernardini, dono da Imovision, distribuidora do filme) –, o delegado Breno lida com seus próprios problemas caseiros e com um ambiente social cada vez mais excludente. A ação de Fim de Festa se inicia com Breno chegando em seu apartamento na capital pernambucana e descobrindo que o filho está com mais três pessoas em casa. Os quatro – dois rapazes e duas garotas que praticam o poliamor entre si sem interditos –, mesmo sentindo reverberar em seus corpos jovens a fadiga pelos recentes dias de prazer e excesso, ainda estão abertos ao hedonismo; já Breno aparece sempre se queixando de cansaço, aparentando ser mais velho do que é de fato. Será entre esses dois ânimos que vão balançar os personagens centrais de Fim de Festa: a inconformidade de quem não se adapta à repressão avançando resoluta por todos os lados e a resiliência de quem já apanhou o suficiente da vida.

Interagindo no espaço público do filme entre indignados e céticos, estão os “cidadãos de bem” que endossam a violência institucional, se comprazem com a punição à liberdade dos costumes e lamentam viver em um país subdesenvolvido e não “civilizado como a Europa”. Há uma profusão de discursos e subtextos em Fim de Festa: alguns estridentes, muitos proselitistas, outros de implicações mais sutis, e por isso mais eloquentes, como a invisibilização social de um dependente químico, a vigilância imposta pelos drones, as “mães pretas” que abrem mão de seus filhos para cuidar das crianças dos patrões – situações semelhantes denunciadas antes em filmes como os do também pernambucano Kleber Mendonça Filho, como O Som ao Redor (2012) e Aquarius (2016).

Mesmo carecendo da contundência e da objetividade de Tatuagem, Fim de Festa destaca-se pela relevância das discussões que levanta e pela qualidade dos diálogos, capazes de expor com clareza o imaginário das distintas classes sociais do país, especialmente nordestinas – uma característica, de resto, comum a todos os roteiros de Hilton Lacerda. Acima de tudo, o filme se sobressai graças ao excepcional trabalho de Irandhir Santos, talvez na melhor atuação de sua carreira como um homem maduro abatido pelo passado e pelo trabalho, mas que segue dentro da festa porque escorado na lucidez e no humor amargo.

 

Plataformas:

Net NOW: aluguel R$ 14,90

Vivo Play e Oi Play: aluguel R$ 12,90

iTunes: compra R$19,90 e aluguel R$ 7,90

YouTube e Google Play: compra R$ 19,90 e aluguel R$ 6,90

 

Fim de Festa: * * * * 

 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

 

Assista ao trailer de Fim de Festa: