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Foto: Juan Sarmiento/Divulgação

Em busca de um novo mundo possível

No documentário "Aeroporto Central", o cineasta brasileiro Karim Aïnouz acompanha um ano da vida de refugiados hospedados nas dependências de Tempelhof, antigo aeroporto berlinense desativado em 2008

O combate à pandemia do novo coronavírus impactou fortemente a indústria cultural – como de resto vem afetando todos os aspectos da nossa vida. Com os cinemas fechados, as estreias de filmes estão sendo adiadas para mais adiante, inclusive para 2021. Muitos produtores e distribuidores, no entanto, têm optado por não esperar tanto e lançado seus títulos diretamente em outros veículos – em particular, as plataformas de streaming. É o caso de Aeroporto Central (2018), documentário de Karim Aïnouz disponível a partir desta sexta-feira (24/4) no Now, Vivo Play, Oi Play, Itunes, Google+, Filme Filme e Looke. O longa estava previsto para entrar em cartaz nos cinemas brasileiros no dia 26 de março, mas, devido às restrições impostas pelo Covid-19, a Mar Filmes e o Canal Brasil decidiram lançar a produção direto em VOD.

Aeroporto Central estreou mundialmente na Mostra Panorama do 68º Festival de Berlim, em 2018, conquistando o prêmio da Anistia Internacional. Depois disso, foi exibido em mais de 30 festivais pelo mundo. No ano passado, o brasileiro Aïnouz destacou-se novamente no circuito dos grandes certames internacionais de cinema ao ganhar o prêmio principal da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes com o belo e sensível melodrama A Vida Invisível (2019).

Em Aeroporto Central, o cineasta acompanha um ano da vida de refugiados hospedados nas dependências de Tempelhof, antigo aeroporto berlinense desativado desde 2008. Entre 2015 e 2019, seus enormes hangares foram usados como um dos maiores abrigos de emergência da Alemanha para pessoas que buscavam asilo no país. Interessado em registrar o cotidiano dessa população reunida em uma espécie de cidade provisória montada no aeroporto vizinho a sua casa em Berlim, Aïnouz registrou de 2015 a 2016 o cotidiano de seus habitantes – em particular, do fisioterapeuta iraquiano Qutaiba e do jovem estudante sírio Ibrahim, que acabou se transformando também narrador do filme. À medida que se ajustam ao cotidiano transitório de entrevistas com o serviço social, aulas de alemão e exames médicos, eles tentam lidar com a saudade e a ansiedade em saber se poderão residir no país ou se serão deportados. Diferentemente da esmagadora maioria de produções acerca de refugiados e imigrantes, Aeroporto Central não mostra cenas de conflitos em regiões conflagradas ou imagens chocantes de desamparo; nem retrata os muçulmanos – especialmente homens – como radicais refratários ao mundo ocidental. O filme não cita explicitamente guerras ou problemas geopolíticos, nem revela partidos e simpatias de seus personagens. Entretanto, ainda que visível apenas difusamente no dia a dia dos moradores que vêm e vão entre os corredores dos alojamentos improvisados no interior do enorme complexo aeroviário, a tragédia desses destinos interrompidos e em suspensão é pressentida o tempo todo. No documentário, a existência parece estar em hiato, pausada – o que é uma ironia, já que aeroportos são por definição locais de deslocamento, de passagem; um não-lugar por vocação que se torna lar por imposição. Tempelhof surge na narrativa como outro personagem, uma testemunha dos tempos em clave de justiça poética: o aeroporto foi primeiro símbolo da grandiloquência nazista, depois base aérea dos militares norte-americanos no pós-guerra, em seguida conexão vital para os berlinenses com o Ocidente na Guerra Fria, por fim acampamento de refugiados de origem árabe.

Se em O Abismo Prateado (2011) o realizador deixava transparecer influências de John Cassavetes e em A Vida Invisível ecoavam Douglas Sirk e Pedro Almodóvar da maturidade, em Aeroporto Central os belos planos contemplativos, o ritmo ralentado e as relações de escala entre o humano e a arquitetura grandiloquente lembram o Theo Angelopoulos de Paisagem na Neblina e Um Olhar a Cada Dia. Abrindo mão do viés jornalístico-investigativo, Karim Aïnouz casa ensaio fílmico com documentário de observação nessa aproximação delicada de uma experiência de convívio em construção, que exige determinação e resiliência de quem deixa tudo para trás e se lança à sorte longe da terra natal e boa vontade daqueles que recebem em seu país essas famílias refugiadas. Em tempos como os atuais que exigem a solidariedade e abnegação de todos, Aeroporto Central aposta que um novo mundo é possível.

 

Aeroporto Central: * * * 

 

COTAÇÕES

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Assista ao trailer de Aeroporto Central: