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"Navigator: Uma Odisseia no Tempo". Foto: Reprodução

A Era do Streaming e a Idade Média

O escritor e jornalista Marcelo Carneiro da Cunha indica duas séries e, vejam só, um filme sobre problemas enfrentados pelas sociedades de ontem e de hoje

Eu creio que vocês ainda lembram da Era da Ida ao Cinema, quando a gente saía de casa, estacionava, comprava um pacote jumbo de pipoca e ao final ia comer pizza em algum lugar. Ah, no meio disso tudo havia um filme, não sei se lembram ainda.

Eu nem lembro direito quando isso aconteceu, porque eu tenho um filho pequeno e já faz horas que a gente vive na Era do Streaming, essa em que subitamente todo mundo entrou, querendo ou não, por conta do coronavirus lá fora. A Era do Streaming entrou tão pra valer na vida de todo mundo que a Netflix, a mãe de todo o streaming do mundo, precisou baixar a qualidade de vídeo, ou não ia haver internet pra todo mundo, vejam onde chegamos.

Se quiserem estragar os dias e as noites de quarentena, podem ver uma das muitas séries de pandemias que estão lá pra isso mesmo. Eu, sinceramente, passo. Se eu quiser ver pandemia só precisa abrir a janela, e se é pra ter uma overdose de realidade, prefiro ficar na dita cuja.

Uma das séries que mais ou menos estragam os dias, mas não tem a ver com germes, Ozark acaba de lançar a terceira temporada. Sombrio era o porão da minha antiga casa. Ozark é um daqueles mergulhos na escuridão das nossas almas que deixa a gente se sentindo um pouco melhor com as nossas vidas, por ver que existe gente muito, mas muito pior andando lá fora.

Basicamente temos uma família normal, assim como eu, como você, com um probleminha envolvendo algum cartel desses que estão por aí, em toda parte, especialmente em séries da Netflix. Eles não tinham o probleminha, mas descobrem que agora tem, e o probleminha os leva da Chicago onde viviam até os lagos Ozark, na parte central dos Estados Unidos, para onde ninguém dotado de bom senso vai, se puder evitar – algo como o Mato Grosso do Sul deles, imagino. A tese é a de que a escuridão é algo com que a nossa retina e nossa alma se acostumam, e pedem mais. A família Byrde assim voa, voa, cada vez mais para longe do que seria recomendável para quem pretende se aposentar com todos os membros no lugar certo.

Nos roteiros americanos, com o puritanismo deles ao redor quase que o tempo todo, as pessoas más devem ser punidas, em geral por terem vidas interessantes, mesmo que não muito boas. Os Byrde seguem a sua trajetória, e eu gastaria uma parte da quarentena aprendendo mais sobre eles, aliás, como estou fazendo. Fica a dica.

Uma outra série curta está ao seu dispor e tem de interessante a vida nada divertida de uma comunidade ortodoxa em Williamsburg, Nova York. Ela se chama Unorthodox, "Nada Ortodoxa", e nos traz o sofrimento de Esty Shapiro, uma jovem de 19 anos que abandona a única vida que conheceu, em uma fechadíssima seita ortodoxa, em troca da vida nada, mas nada ortodoxa de Berlim, onde vive a mãe que ela também praticamente desconhece.

Eu nunca vivi em uma seita ortodoxa, com práticas medievais e chapéus esquisitissimos, e sequer posso imaginar a vertigem que o mundo aqui fora representa para uma mulher como Esty. Como tantas mulheres, dotadas de uma força vital que não sei se homens chegam a compreender direito, Esty vai, e vai.

As cenas se dividem entre Brooklyn – bad, e Berlim – good, e entre elas vai Esty, e vamos nós. Se eu fosse vocês, eu iria.

Por último, queria sugerir que vocês tentassem achar em algum lugar deste mundo feito de streaming o belissimo filme Navigator: Uma Odisseia no Tempo, australiano e neozelandês, de 1988. Na busca de uma cura para a peste que se aproxima, mineiros de um vilarejo inglês na Idade Média cavam um túnel e saem, de algum jeito, na Nova Zelândia do século 20, de trens, automóveis, luz elétrica e tudo mais que eles intepretam como mágica, e tratam como tal.

Nossos antepassados medievais não viam muita diferença entre o real e o fantástico, e talvez isso os aproximasse da gente na hora que o streaming nos livra, por uns tempos, da dura realidade lá fora. Fazer como eles, por um tempo, pode ser mesmo o que a gente precisa pra sair dessa. Eu faria.

Fica a dica.