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Era uma vez na Irlanda

O jornalista e escritor Marcelo Carneiro da Cunha recomenda "Derry Girls", série disponível na Netflix sobre uma turma de garotas de uma escola católica da Irlanda do Norte nos anos 1990

Pois a comédia de maior sucesso do Channel 4 inglês, e o programa mais visto na história da Irlanda do Norte, é uma série sobre uma turma de garotas em uma escola católica de Derry, no meio do conflito que sacudiu o Reino Unido durante boa parte do século 20.

Uma das melhores formas de se lidar com tragédias que não sejam holocaustos é a comédia, e Derry demonstra isso com uma precisão de relojoeiro suíço. O timing frenético, a previsível imprevisibildade – você sabe que no instante seguinte vai acontecer ou ser dito algo que você absolutamente não imaginava –, as atuações deliciosas, contra um cenário de muita violência institucional e instabilidade política, tornam Derry Girls a melhor série que você deveria ver.

Pra tornar tudo muito fácil, as duas temporadas estão na Netflix, a um toque do seu dedão. Pra deixar tudo um pouco difícil, por toda a sua hilariedade, a linguagem de Derry Girls não é algo com que você, eu, o senhor aqui ao lado, estejamos acostumados. O pano de fundo cultural, histórico, ou dos costumes e da linguagem não são imediatos. Você entende, e você pode curtir intensamente o que você vê. Mas se você não é inglês, ou irlandês, boa parte do que você vê requer algum nível de esforço. Se você não é um ser absolutamente refratário a qualquer tipo de esforço, existe muito a ganhar com a fantástica realidade de Derry Girls.

Pra iniciar, os personagens centrais são adolescentes em uma escola católica de um país dividido pela religião. Os católicos querem uma Irlanda pra eles, os protestantes não querem se afastar da Inglaterra, e a disposição pro diálogo é mais ou menos a de um eleitor do Bolsonaro. Como faz?

Adolescentes têm famílias, e as famílias dessas garotas são irlandesas e católicas, uma mistura hilária de transgressão e tentativas de alinhamento com a ortodoxia religiosa da velha igreja católica, aquela que a gente nem lembra que existe. Vá ali tentar ser adolescente num meio desses. E é exatamente o que elas precisam fazer, porque a adolescência é só uma, e meio que uma obrigação constitucional de cada um de nós. Não tem jeito, tem que achar jeito.

Erin é a voz central, suas amigas são Clare, que suspeita ser gay, mas não há como saber na Irlanda do Norte, Michelle, a beldade da turma, sem muitas chances de elaborar suas fantasias pra lá de sexuais, a prima completamente desprovida de noção, Orla, e a quinta Derry Girl, James, que provoca mais estranhamento na turma por ser inglês do que por ser garoto.

A família de Erin está ao redor, o tempo todo, e ao contrário de outras familias de séries que se assiste, essa a gente aguarda ansiosamente que entre em cena. Os adultos, tão birutas quanto as girls, ao menos sabem o que acontece lá fora, e nos mostram aos poucos o que ocorre nos anos 1990, quanto a Irlanda finalmente acha um jeito de sair dos troubles que você conhece pelas músicas do U2.

Igualmente impagável é Sister Michael, a freira-chefe, diretora da escola, é um ser que precisava ter sido criado, caso não existisse em cada escola católica deste mundo, vasto mundo. Sister Michael é da linha-dura, e admite que aceitou a luz divina para não precisar pagar aluguel. O sarcasmo de Sister Michael é motivo mais do que suficiente para você aguardar de joelhos a terceira temporada, que felizmente chega neste ano.

Derry Girls é tão bom que faz a gente se dar conta do bem que Monty Python fez ao mundo, para quem conseguiu entender o que eles estavam fazendo. Eles estavam desmontando um mundo insustentável usando o humor como chave de fenda. A chave de fenda que eles criaram encontrou outros usos, e talvez, talvez TV Pirata, Casseta & Planeta, Marcelo Adnet, sejam herdeiros, dignos ou não, dessa carpintaria.

Veja, monte, desmonte e sinta-se feliz como eu por podermos assistir a Derry Girls sem precisar fazer mais do que sentar no sofazão e apertar o botão certo.

Aperte.

Fica a dica.