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Marco Antonio Filho. Foto: Marco Antonio Filho/Divulgação

Marco Antonio Filho exibe “Meio do Mundo”

O artista inaugura a temporada 2020 da galeria do Goethe-Institut Porto Alegre, em mostra com curadoria de Luísa Kiefer

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por Ricardo Romanoff

O artista Marco Antonio Filho inaugura a temporada 2020 da galeria do Goethe-Institut Porto Alegre com a exposição O Meio do Mundo. A abertura da mostra acontece hoje (12/3), às 19h, apresentando trabalhos em fotografia, vídeo, texto e instalação, realizados entre 2016 e 2020, que exploram a região de Tainhas, distrito do município de São Francisco de Paula (RS).

Nascido em Lajeado, em 1984, Marco Antonio atua como fotógrafo, artista visual e professor. É doutorando e mestre em Poéticas Visuais pelo Instituto de Arte da UFRGS e bacharel em Comunicação Social pela Unisinos. Desde 2007 desenvolve produção artística através da fotografia, criando um diálogo entre os processos documentais e as artes visuais para propor questionamentos sobre os modos de formação da paisagem à partir de uma perspectiva histórica e biográfica.

“Marco nos convida a olhar para esse lugar que foi desviado do tempo pela construção de uma nova estrada e é também marcado pela origem de sua família paterna. Seus trabalhos, nos conduzem, de forma sensível, por temas como território, paisagem, passagem do tempo e memória”, conta Luísa Kiefer, curadora da mostra.

A exposição permanece aberta para visitação do público até 2 de maio, com entrada franca. Confira a entrevista com o artista.

Nos conta um pouco sobre o desenvolvimento do projeto. Como tu chegaste ao vilarejo de Tainhas, quando tu percebeste que poderia realizar uma série e como esse trabalho foi construído desde 2016.

Meu interesse pelo vilarejo de Tainhas, em São Francisco de Paula, vem de uma relação pessoal: é de lá que se origina a família de meu pai. Cresci ouvindo histórias sobre esse lugar, que acabou se tornando uma espécie de “lugar ancestral” para mim. O outro interesse é a própria história de Tainhas: por conta de sua localização, em um entroncamento no meio do caminho entre as principais cidades da região, a vila servia como ponto de parada de viajantes. Por conta disso, foi durante muito tempo uma vila pequena, mas próspera. Acontece que, no processo de pavimentação, o desenho das estradas foi desviado na altura de Tainhas. Por menos de um quilometro o vilarejo parece ter ficado à margem do progresso que a chegada do asfalto anunciava.

Eu sempre pensei que em algum momento me debruçaria sobre Tainhas para produzir algo. Em 2016, durante o mestrado em Poéticas Visuais do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFRGS, decidi dar início a esse processo. No início comecei como geralmente começo meu trabalho, indo a campo e fotografando o que encontro, o que vai me chamando atenção. Aos poucos um projeto foi se delineando, e foram surgindo trabalhos também em outros suportes além da fotografia.

Como essas diferentes linguagens foram tecidas na exposição?

De forma geral, minha produção se dá através da fotografia. Mas para essa exposição acabei trazendo outros materiais que foram surgindo ao longo do processo, algumas coisas, inclusive, que eram em um primeiro momento material de pesquisa, que não foram pensadas como obras. Na exposição todas as obras são pensadas de forma a se complementar, a trazer diferentes aspectos do que venho pensando sobre (e a partir) desse lugar.

Além da questão do lugar (não apenas de se referirem ao mesmo lugar, mas de trazerem uma sensação de lugar), acho que as obras se relacionam por tratarem, de diferentes modos, sobre questões relativas à passagem do tempo. Na instalação Testemunhos (Capão do Perico), por exemplo, utilizo centenas de amostras de solo rochoso extraídos da região como forma de marcar o peso do tempo geológico – que parece ser alheio à minha memória familiar, ou à própria história do vilarejo em si. Já os textos reunidos na obra Opúsculo de Observações tratam tanto das memórias de meu pai quanto do modo como a paisagem de Tainhas tem mudado nos últimos anos.  

Por que o título Meio do Mundo

O título da exposição é retirado do livro Páginas da História: São Francisco de Paula (Martins Livreiro Editora, 2017), da escritora tainhense Iva da Silva. Em um de seus textos ela se refere a Tainhas – de forma ao mesmo tempo irônica e carinhosa – como “o meio do mundo”, pela localização do vilarejo em um entroncamento perfeito. Para mim o título traz uma ideia muito forte de lugar – ou seja, de um espaço carregado de significado. 

Como tu percebes a questão da “frustração do sonho moderno” presente no vilarejo de Tainhas e mencionada na divulgação da exposição?

No caso de Tainhas, como em qualquer lugar remoto, a chegada do asfalto trazia uma série de promessas de crescimento, tanto espacial quanto econômico. Mas a rota da estrada foi desviada e junto com ela todas essas promessas. Daí que vem essa ideia de uma frustração do sonho moderno. A imagem da estrada que tem sua rota desviada é muito forte para mim. É talvez uma metáfora simples, mas, ao meu ver, muito potente para se discutir a ideia moderna de progresso – que parece estar no centro dos problemas ambientais e sociais que estamos enfrentando globalmente. 

De que forma essa exposição se relaciona com outros trabalhos teus?

Essa exposição é um desdobramento natural do meu trabalho. Estão ali questões recorrentes em minha produção, principalmente as relações entre paisagem e memória. Acho, principalmente, que é um desdobramento direto da minha primeira exposição individual, Já Não É Mais Verão, que apresentei em outubro de 2013 na Casa de Cultura Mario Quintana. 

Nessa exposição eu também explorava uma paisagem diretamente ligada às minhas memórias. Naquele caso foi Tramandaí, onde passei todos os verões da minha infância e adolescência – e por isso um lugar muito enraizado no meu imaginário. A estratégia então foi fotografar a paisagem do balneário no inverno, como um modo de representar os sentimentos em relação a uma fase da vida que se vai. 

Em O Meio do Mundo, penso que acabei indo mais a fundo nesse processo, buscando uma memória ancestral e uma relação com tempos mais profundos. Mas parece haver um mesmo sentimento (que não sei se posso chamar de “desolação” ou “melancolia”) que permeia os dois trabalhos.