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Capa de "Expressivas". Foto: Layne Paes

Mulheres compositoras ganham destaque em Expressivas, de Thaís Nascimento

Inspirada no legado de Mayara Amaral, musicista vítima de um feminicídio, a violonista porto-alegrense está gravando "Expressivas – Mulheres Compositoras para Violão"

por Ricardo Romanoff

Em julho de 2017, um caso de feminicídio chamou atenção nos noticiários do país. No dia 25 daquele mês, em Campo Grande, a musicista Mayara Amaral foi morta a marteladas por Luís Alberto Bastos Barbosa, músico com quem a artista mantinha um relacionamento – mais tarde, em 2019, Barbosa foi condenado a 27 anos e dois meses de prisão pelo assassinato brutal e pelo ocultamento do corpo de Mayara, que fora incendiado à beira de uma estrada sul-mato-grossense. A comoção nacional em torno do crime foi ainda maior na área da música: além de talentosa violonista, Mayara era pioneira na pesquisa e na difusão de obras compostas por mulheres.

O impacto da notícia somado ao interesse em dar continuidade à pesquisa de Mayara motivou a violonista porto-alegrense Thaís Nascimento a gravar o disco Expressivas – Mulheres Compositoras para Violão. Viabilizado por financiamento coletivo e com previsão de lançamento para junho de 2020, com produção executiva de Glauber Kiss de Souza, produção musical de Maurício Marques e masterização de Marcos Abreu, o álbum apresenta um repertório de compositoras para violão instrumental que traz obras originais e arranjos criados por Thaís.

Além de remeter a um atributo artístico, o nome do projeto faz menção ao volume significativo e, ao mesmo tempo, invisibilizado da composição feminina. No repertório, Thaís priorizou compositoras vivas como as brasileiras Cíntia Ferreiro, Lúcia Teixeira e Andrea Perrone, a norte-americana Barbara Kolb e a venezuelana Elodie Bouny. As homenagens póstumas são destinadas a Lina Pires de Campos (1918-2003) e Chiquinha Gonzaga (1847-1935) – compositora negra e primeira mulher a se destacar na música brasileira, autora de Gaúcho (Corta-jaca) e Ó Abre-Alas, obras com partituras originais para piano, as quais Thaís adaptou em arranjos para violão – confira o vídeo ao final da matéria.

Tomada de consciência

O interesse em manter viva a pesquisa de Mayara Amaral resultou em uma viagem de Thaís a Campo Grande. Por lá, a violonista aprofundou a pesquisa para o projeto, ampliando o contato com os estudos desenvolvidos por Mayara. A violonista porto-alegrense aproveitou também para fazer a foto de capa do disco – assinada pela fotógrafa Layne Paes –, na qual estão presentes a mãe e a irmã de Mayara, que se tornaram amigas de Thaís em sua breve passagem por Mato Grosso do Sul.

Aos 25 anos, licenciada e bacharela em Música pela UFRGS, com pós-graduação em Filosofia Contemporânea pela IMED e mestranda em Música pela UFRGS, Thaís define a morte de Mayara como um estopim existencial. “Foi um processo de tomada de consciência da minha existência como mulher, de aos poucos me identificar como violonista e musicista”, conta. A partir daí, ela começou a conceber o álbum, que busca resgatar obras de compositoras, contribuindo para a igualdade de gênero e para o reconhecimento da produção de mulheres na música – mais especificamente, na composição e no violão.

Representatividade feminina

A tomada de consciência de Thaís, que relata ter se sentido desencorajada em diversos momentos de sua trajetória, diz respeito a inúmeras dificuldades impostas às mulheres que se dedicam à música – entre elas, a representatividade na formação universitária. Entre as poucas mestres e colegas que encontrou nesse percurso, Thaís cita Flávia Domingues Alves, professora do curso de Música da UFRGS e raro exemplo de mulher docente de violão em nível superior.

Outro aspecto da representatividade diz respeito aos repertórios dos mais diversos campos musicais, sobretudo na música de concerto, nos quais a hegemonia masculina é uma constante. “Às vezes sou a única pessoa que toca um repertório feminino”, diz. “Quando só temos representatividade de um gênero, prevalece a visão de mundo do homem e uma dominação, inclusive uma objetificação do nosso corpo”, completa.

Esse último aspecto se traduz, por exemplo, nas imagens de divulgação de recitais integrados por musicistas, cujos corpos ganham um destaque muitas vezes desproporcional se comparados com as fotografias de músicos homens. “Não basta tocar violão, tem que chamar atenção corporalmente”, critica Thaís.

Engajada nos palcos e na vida

Em sua atuação profissional como musicista e professora de violão, Thaís não abre mão de seu engajamento político – postura que se revela um tanto incomum no âmbito da música de concerto. “Já me disseram que sou radical”, afirma.  Nas aulas que ministra, Thaís conta que estimula o protagonismo das alunas mulheres, uma preocupação que deu origem ao Curso de Violão para Mulheres, que a violonista já ofereceu ao longo de dois semestres, com turmas de quatro a seis mulheres e mensalidades acessíveis, realizado em um espaço no Centro de Porto Alegre.

O envolvimento com movimentos sociais e iniciativas como a Mulheres Mirabal – casa de referência que abriga mulheres vítimas de violência – amplia suas inquietações para intersecções das desigualdades de gênero. “Estudar música, comprar instrumento, é caro. O violão é mais acessível, mas ao mesmo tempo tem todo um repertório conservador. Temos que estar sempre refletindo sobre essas diferenças, a música reproduz todos esses marcadores sociais”, observa.

A reflexão sobre essas questões e o mergulho no legado de Mayara Amaral impulsionam a produção de Thaís – e implicam um peso. No entanto, a compositora segue em frente: “Às vezes eu choro, fico triste. Não é fácil. Ao mesmo tempo, a vontade de transformação me dá coragem”.


Assista ao vídeo de Thaís Nascimento tocando Cena Brasileira 2, da compositora Elodie Bouny.

Confira o arranjo Gaúcho/Abre-Alas, de Thaís Nascimento, a partir das composições para piano Gaúcho (Corta-jaca) e Ó Abre-Alas, da compositora Chiquinha Gonzaga.