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Foto: Tiago Werner/Divulgação

Três (ou mais) perguntas para Diogo Nogueira

O cantor, que lança nesta sexta (6/3) o disco "Ao Vivo em Porto Alegre" no Araújo Vianna, afirma sua fé nos artistas do samba: "O sambista sempre foi um cronista do seu tempo e assim continua sendo"

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Nesta sexta-feira (6/3), Diogo Nogueira retribui o carinho que sempre recebeu na capital gaúcha. O cantor e compositor apresenta no Auditório Araújo Vianna o álbum Ao Vivo em Porto Alegre – que será lançado em CD e nas plataformas justamente neste dia. O registro compila os maiores sucessos da carreira do filho do grande sambista João Nogueira (1941 – 2000), entre regravações de outros grandes artistas da música brasileira e composições autorais do recente Munduê.

Na entrevista exclusiva a seguir, Diogo fala de samba contemporâneo, parcerias, projetos e de sua relação com Porto Alegre – o músico jogou futebol profissionalmente pelo Cruzeiro daqui, em 2004, e foi tema da escola de samba porto-alegrense Imperatriz Dona Leopoldina, em 2016.

 

Porto Alegre ocupa um lugar importante na sua vida e na sua carreira – e você sempre se refere a isso. Na capital gaúcha está um dos seus públicos mais fiéis. O que significa para você o disco Ao Vivo em Porto Alegre?
Quando pensei em fazer um registro desse show, que venho rodando por todo o Brasil e que tem tido uma excelente receptividade por diferentes tipos de plateia, quando pensei em um lugar, não tive dúvidas em escolher Porto Alegre. Esse carinho que o povo gaúcho tem comigo, desde o início da minha carreira, é muito especial. Até enredo de escola de samba eu já fui, aliás, vencemos o Carnaval (risos). Ou seja, é uma energia muito especial e somos movidos a isso, a energia, a essa troca que acontece nos shows, quando damos o máximo de nós e recebemos carinho e afago, nos sorrisos, na felicidade e quando cantamos junto o repertório do show. Gravar esse álbum em Porto Alegre significa retribuir para a cidade e para os gaúchos um pouco da gratidão por tudo que recebi ao longo da minha vida.

Uma constante no seu trabalho é a presença de compositores de samba contemporâneos. Para você, que cresceu em meio aos melhores sambistas de várias gerações, quais são as principais características dos compositores do gênero da atualidade?
Vivemos um outro tempo, um mundo globalizado, e naturalmente a maneira de compor também mudou bastante. Acredito que todos os jovens compositores beberam na fonte, na raiz, nos inspirando nos mestres, em compositores que escreveram páginas e mais páginas da música popular brasileira. O sambista sempre foi um cronista do seu tempo e assim continua sendo. Muitos ainda se inspiram nos temas universais, atemporais, mas é inevitável termos novos sambas com inspiração nas coisas do cotidiano de quem vive em pleno ano de 2020.

Em sua discografia, há tanto álbuns de feitio mais popular e romântico como Mais Amor até trabalhos sofisticados como os ótimos Bossa Negra e Munduê. Como você conjuga em sua carreira a demanda por trabalhos de perfil mais comercial com a vontade de também produzir obras mais rebuscadas?
Tudo que gravei, que produzi, que lancei, sempre foram trabalhos onde gravei o que quis e tive vontade de cantar. Tenho 12 anos de carreira e nesse pouco tempo tive a oportunidade de fazer diferentes trabalhos e vejo isso como um fato muito positivo na minha carreira. Já gravei DVD em Cuba. Já tive a participação do Chico Buarque em dois trabalhos diferentes. Sempre gravei música romântica e no CD Mais Amor, dedicado às mulheres, tinham diversos sambas que não eram românticos. É normal que os trabalhos ganhem rótulos, nem sempre justos, ou que de fato retratem aquilo que está sendo feito, mas também aprendi a seguir a minha estrada sem me preocupar com possíveis críticas. Sigo o meu coração e assim tem sido. Em Munduê, que foi meu disco comemorativo de 10 anos de carreira, resolvi gravar um repertório 100% autoral, e isso foi uma ideia minha e que trouxe um resultado incrível de publico e crítica. É assim mesmo, como diria nosso querido Zeca Pagodinho, é um dia da caça e outro do caçador.

Você virou uma espécie de embaixador do samba. Com dois prêmios Grammy Latino e turnês internacionais no currículo, como você vê a recepção ao gênero no Brasil e no mundo hoje em dia?
O samba é o ritmo que melhor representa o Brasil e tem sido assim desde o início do século passado. É um gênero que sofreu e ainda sofre preconceitos, mas que durante muitos anos sustentou gravadoras multinacionais, que o diga Clara Nunes, Beth Carvalho, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho. E isso é cíclico e, no momento, apesar de ter uma carreira que vem se consolidando aos poucos, vejo que o samba continua com muita força e que ainda revelará muita gente bacana que vem surgindo nas rodas de samba de diferentes cidades. E, pelo mundo, o samba continua sendo uma marca registrada do Brasil, e até mesmo para artistas que não são do samba, muitas vezes é preciso colocar no repertório um samba ou uma bossa nova, para dar uma liga maior.

O que você tem escutado atualmente, além de samba?
Tenho ouvido LPs, por incrível que pareça. Tenho uma vitrolinha em casa e me divirto ouvindo discos antigos, de Tim Maia ao Barão Vermelho, passando por Cartola e Pixinguinha. Sou um cara meio atípico nesse sentido.

Quais são seus próximos projetos?
Estou lançando esse álbum Ao Vivo em Porto Alegre nas plataformas digitais e em CD físico, mas em julho gravo meu novo DVD que irá se chamar Samba de Rua, com inéditas e sambas que a gente garimpou nas rodas de samba, buscando valorizar o subúrbio, o batuque, a essência desse samba que toda gente ama. Também tenho feito shows com um trabalho diferente chamado Eu, Violões e Canções, acompanhados dos grandes músicos Rafael dos Anjos (violão de 6 cordas) e do Rogério Caetano (violão de 7), em que canto um repertório baseado em pérolas do cancioneiro popular brasileiro, onde canto até samba (risos), e que em breve também irá virar um DVD. E também faremos uma parceria com o YouTube em um projeto especial que em breve poderemos trazer mais detalhes.