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"The Mandalorian" es más macho

Marcelo Carneiro da Cunha escreve sobre o herói durão, um caçador de recompensas das galáxias saído do universo "Star Wars" para o mundo das séries pelo serviço de streaming Disney+

La primera pregunta es: que es más macho? Pineapple, or knife? Era assim que começava a canção Smoke Rings, da imortal Laurie Anderson, do imortal álbum Home of the Brave, pérola dos anos 1980, que Dios lo tenga. Pois essa pergunta imortal finalmente conhece sua resposta definitiva: The Mantalorian es más macho que los pineapples, knives y todas las cosas en una galaxia far, far away.

E como.

The Mandalorian é um herói macho à moda antiga, de chutar porta e cuspir no canto, de apagar a luz com tiro e preferir uma boa pancadaria a qualquer diálogo que envolva palavras, em qualquer língua. Pra tornar ele ainda mais macho, o rapaz jamais tira o capacete, usa uma combinação pra lá de fashion de capa sobre armadura – e por sorte nunca precisa entrar em uma agência bancária vestindo aquilo tudo. Ele é um cavaleiro solitário com seu corcel espacial, indo e vindo por entre sistemas distantes sem nunca precisar de reabastecimento ou encher a geladeira. Macho que é macho não para por pequenos detalhes como esses, e muito menos pra perguntar o caminho.

Nestes tempos, e com um personagem desses como heroi, não era pra The Mandalorian ser o que é – longe – a melhor coisa já surgida em cima da saga Star Wars. Longe. E olhem que estamos falando de sagas intergalácticas, onde longe é longe, mas longe mesmo.

Star Wars era uma coisa boa que coalhou mais ou menos entre o segundo e o terceiro filme da série. Enquanto havia Luke, Hans Solo, C3PO, R2D2 e a gostosa da Leia, a coisa fluia. Tudo que veio depois foi de amargar de tão sem graça. Na luta entre as forças que dividem a galáxia, os cinemax venceram.

The Mandalorian é outro bicho, muito mais interessante. Alguém encontrou uma historinha desse tamanhinho, num cantinho da saga estelar de Star Wars, e viu uma pérola onde até então ninguém tinha visto nada. Acontece. E então esse alguém pegou essa historinha de um ronin da periferia espacial, que ganha algum recapturando fugitivos pela recompensa, e com a sobra conserta a sua armadura gasta pelas intempéries e tiros de laser que sempre se acaba levando por aí.

But, it's a living, e um sujeito durão precisa comer de vez em quando e arrumar a armadura sempre que der, e se um sujeito é mau o bastante pra justificar uma fiança decente, é mau o bastante para ser capturado e congelado pelo nosso Mandalorian, membro da guilda dos Bounty Hunters Inc.

Tudo vai bem, ou seja, mal, quando uma proposta de trabalho pra lá de irresistível aparece para o nosso herói sem rosto: capturar e trazer de volta, vivo, mas tudo bem se não tão vivo, um bebê de uma espécie onde toddlers podem ter 50 anos de vida sem perder a tramontana.

Nosso impassível Mandalorian vai, vê e volta, e aí começa a lambança, cuja não nos cabe descrever sem produzirmos aqui um Fenaspoiler.

O que importa é que The Mandalorian é a versão dotada de armadura de um Clint Eastwood dos bons tempos. Ele é tão incorruptível, inaudível, inverossímil e imorrível quanto qualquer Lone Ranger de boa safra. Conectar The Mandalorian à nobre estirpe dos western, do mocinho durão e inabalável por tiros, flechas e mocinhas in distress é o óbvio, e o detalhe de ele flutuar na direção do sol poente ao final é, óbvio, mera coincidência.

Mas, eu creio que todos deveríamos olhar pra uma outra fonte, uma série que apareceu para o mundo cedo demais, no distante ano de 2002, pré internet rápida o suficiente, pré-streaming, pré The Wire e pré-diluviana, no tempo geológico das séries, a deliciosa e queridinha Firefly.

Firefly durou apenas uma temporada e deixou muitos corações chorosos com a sua breve passagem por nossas vidas, e foi ela quem juntou western com espaço – e alguma dose de psicodelismo. Diferentemente de The Mandalorian, ela tinha bastante humor, e nenhuma armadura. Igual a The Mandalorian, ela pegava gêneros que ainda não tinham sido vistos na companhia um do outro e criava algo surpreendente, encantador e, ao mesmo tempo, déjà vu. Já vi antes, apenas nunca desse jeito.

The Mandalorian é tudo isso, e ainda traz para as telas o bebê Jedi mais fofo de todos os tempos ever, nosso querido The Child, ou, do jeito que os fãs nomearam, Baby Yoda. Se um bebê consegue ser a coisa mais querida e ainda nocautear dinossauros espaciais, então ele é um Baby Yoda, dotado da Força, mesmo que sem entender direito que coisa é essa. 

Um tipo durão e bebê fofinho, mais uma moça tão durona quanto o Mandalorian, a trupe essencial de The Mandalorian formam. Como diria Yoda sênior, “Great is the power of the Force”. Ainda mais quando associada a um criador e showrunner tão compentente quanto Jon Favreau.

The Mandalorian é um dos bons motivos pra se estar vivo em 2020, se isso é mesmo 2020, e se isso é mesmo estar vivo.

Fica a dica.