Matinal assinantes

Desfile das Escolas de Samba - Série Ouro do Carnaval 2017. Foto: Brayan Martins/ PMPA

Há espaço para o Carnaval na cultura de Porto Alegre?

A historiadora Laura Galli analisa a conturbada relação da cidade com o Carnaval e as escolas de samba

por Laura Galli, historiadora

Porto Alegre, 14 de fevereiro de 2002. Milhares de foliões ocupavam as arquibancadas montadas na avenida Augusto de Carvalho para assistir aos desfiles do Grupo Especial das escolas de samba. Já era madrugada da terça-feira de Carnaval quando uma pane no carro abre-alas da Imperadores do Samba interrompeu os desfiles. O imprevisto desencadeou um atraso de mais de seis horas na noite mais esperada do ano para os carnavalescos. O clima ficava tenso à medida que a questão não era resolvida, com vaias, choro e decepção do público e de integrantes das escolas. O atraso foi tanto que a Imperatriz Dona Leopoldina, prevista para entrar na avenida às 4h40min, iniciou sua apresentação apenas às 11h da manhã da Quarta-Feira de Cinzas. De maneira geral, a frustração se sobressaiu à alegria do espetáculo.

No dia seguinte, os jornais locais noticiavam um jogo de empurra entre a Imperadores do Samba e a Prefeitura sobre a responsabilidade em relação ao atraso e à retirada do carro alegórico da via, o que só foi feito na quinta-feira. A Secretaria Municipal de Cultura alegou que o convênio firmado com a Associação das Entidades Carnavalescas de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul (AECPARS) não fora cumprido, além de sugerir que a validade dos julgamentos fosse reavaliada.

A então coordenadora do Carnaval afirmou que a Imperadores seria penalizada, pois a pane prejudicara os desfiles. Já o presidente da escola afirmava que a Prefeitura também faltara com a responsabilidade, pois a resolução do impasse dependia de ações do poder público, como remover uma parada de ônibus da Loureiro da Silva, desligar postes de luz e demolir parte do canteiro central da avenida para a retirada do carro.

Além disso, o presidente da AECPARS, Jorge Sodré, defendeu que, mesmo com atraso, os desfiles tinham sido realizados, não havendo descumprimento do convênio por parte das escolas. A pane, que já era um problema por si só, se tornou um transtorno muito maior e simbolizou um momento de virada no Carnaval de Porto Alegre. Uma afirmação em forma de desabafo de Sodré resumia um sentimento generalizado da comunidade carnavalesca: “Enquanto não houver a Pista de Eventos, o Carnaval estará comprometido”.

O tão aguardado – e adiado – espaço para o Carnaval

Entre as décadas de 1990 e 2000, a Pista e Eventos era o nome de um projeto que não saía do papel. Era a possibilidade de um espaço digno para os desfiles das escolas de samba – que aconteciam na Augusto de Carvalho de forma temporária desde os anos 1980. A cada ano a estrutura de arquibancadas e demais equipamentos era montada nas semanas que antecediam o Carnaval, fechando a via nesse período – os barracões eram instalados nos armazéns do Cais do Porto, distante da avenida. Tal deslocamento prejudicava o necessário cuidado com os carros, como no caso da Imperadores em 2002.

Ao dizer que o Carnaval estaria comprometido sem um lugar próprio, Jorge Sodré desabafava em relação a mais de dez anos de espera por um espaço para as escolas. Entre a primeira menção à construção do equipamento, em 1988, no mandato do prefeito Alceu Collares, e a inauguração do Complexo Cultural do Porto Seco, em 2004, foram estudadas (e depois abandonadas) cerca de cinco possibilidades de local pela Prefeitura e pela Câmara de Vereadores. A cada projeto, um novo obstáculo surgia: órgãos públicos da administração federal manifestavam-se contrários e associações de moradores e movimentos sociais alegavam que a realização do evento em determinados lugares traria confusão e violência, claramente estigmatizando a festa popular.

Foram esses projetos e suas negativas que estudei na dissertação de mestrado “Um longo caminho até o Porto Seco: lutas e disputas por espaço no Carnaval de Porto Alegre (1994-2004)”, no Programa de Pós-Graduação em História da UFRGS (em breve disponível para leitura no Lume, repositório digital da Universidade). Afinal, por que os desfiles foram transferidos da zona central da cidade para o Porto Seco, no extremo norte? Como esse processo ocorreu? Que argumentos foram utilizados para negar a instalação de uma pista em locais como o Parque da Harmonia, o Parque Marinha do Brasil, a própria avenida Augusto de Carvalho e o bairro Humaitá? Essas foram algumas das perguntas que guiaram a pesquisa.

Um espaço permanente, com arquibancadas, barracões para montagem de alegorias e demais estruturas, era a reivindicação da comunidade carnavalesca da cidade – tradicional e numerosa, ainda que invisibilizada. Desde o primeiro projeto de Pista de Eventos, a intenção era a de que não se construísse apenas um sambódromo. As instalações abrigariam outras atividades, como o nome indica, desde oficinas relativas à produção do Carnaval (costura, marcenaria, mecânica), passando por espetáculos e incluindo os desfiles de Independência do Brasil e Revolução Farroupilha. A partir de uma demanda que era específica do Carnaval, a Pista de Eventos transformou-se num projeto que previa funcionamento plural, durante o ano inteiro, voltado a diversos grupos sociais.

Menos de um mês após a fatídica pane do carro alegórico, em março de 2002 o Conselho do Plano Diretor definiu – e o prefeito Tarso Genro referendou – o local do Porto Seco que acolheria a Pista de Eventos. Era distante do centro e não foi necessariamente bem recebido pela comunidade carnavalesca, que esperava a escolha de uma área no bairro Humaitá. Mas havia a promessa de que a distância seria compensada com uma estrutura condizente com o tamanho que o Carnaval de Porto Alegre adquirira. Em fevereiro de 2004 foi então inaugurado o Complexo Cultural do Porto Seco, com alguns barracões, que depois aumentaram em quantidade, mas sem arquibancadas. Até hoje.

De 2004 a 2016 os Carnavais das escolas de samba ocorreram lá, com montagem temporária de arquibancadas, mas com algum apoio da Prefeitura, além da garantia dos barracões próximos à avenida, facilitando o trabalho dos carnavalescos e o transporte das alegorias.

Agoniza, mas não morre

Porto Alegre, noite de 24 de março de 2017. Previsão de início dos desfiles da Série Prata para as 20h30min. Seria o Carnaval da resistência: pela primeira vez em décadas, a Prefeitura não apoiaria financeiramente a realização dos desfiles. Embora o orçamento para infraestrutura do Porto Seco já estivesse aprovado desde 2016, logo que assumiu seu mandato, em janeiro, o prefeito Nelson Marchezan Júnior afirmou que não haveria verba para os desfiles de Carnaval, desconsiderando o preparo de meses das escolas e toda a cadeia produtiva que a festa mobiliza. No entanto, as escolas de samba se organizaram e conseguiram apoio de uma empresa privada para que pudessem se apresentar na estrutura no Porto Seco – com arquibancadas, postos de saúde e da Brigada Militar, além de equipamentos de luz e som. Mas não houve tempo hábil para a realização durante os dias de Carnaval. Por isso, os desfiles ficaram para os dias 24 de março (Série Prata) e 25 de março (Série Especial).

Ao longo do dia 24, foram realizadas reiteradas vistorias pela Brigada Militar e pelo Corpo de Bombeiros, os quais alegaram que a estrutura não se adequava ao Plano de Prevenção contra Incêndio (PPCI). Depois de muita espera e tentativas, em torno das 22h confirmou-se que o Porto Seco estava interditado pelos Bombeiros e que não haveria desfile naquela noite, frustrando milhares de foliões e carnavalescos já prontos para desfilar. Segundo a corporação, itens do PPCI foram descumpridos, como a instalação de extintores e saídas de emergência, além da falta de um sistema de iluminação e isolamento de risco.

“Eles [Brigada e Bombeiros] estavam lá desde as três horas da tarde do dia do desfile do Prata. Caminhavam a pista toda e diziam ‘ó, tem um buraco aqui’, aí o pessoal tapava o buraco e vinham de novo ‘ah, mas tem outro buraco ali’. Foram matando no cansaço. ‘Ah, mas falta tantos extintores’. O pessoal mandou vir às pressas os extintores, penduraram. ‘Não, mas tem que ter um metro do chão’. Foram lá, mediram… No final, o pessoal da Liespa [Liga das Escolas de Samba de Porto Alegre] estava com chave de fenda modificando coisas. E cada vez que modificavam eles achavam outros problemas.” Esse é o relato de Caren Nurimar, carnavalesca e costureira dos Bambas da Orgia em entrevista realizada em 2017. Em sua fala, fica evidente que a questão não era apenas a segurança para a realização dos desfiles.

Somado a outros episódios, nota-se que a relação da cidade de Porto Alegre com o Carnaval – especialmente o das escolas de samba – está longe de ser acolhedora. Não quero dizer que, por exemplo, o caso do PPCI em 2017 fosse ilegítimo, mas convido a repararmos que a pressão sobre as escolas de samba para que garantam segurança, limpeza e organização é frequentemente maior do que em outras manifestações culturais, como o Acampamento Farroupilha – e, no caso exposto, sem respaldo do poder público para regularizar a situação.

Novamente sem verba do município e com dificuldades para articulação de outras fontes de renda, em 2018 decidiu-se que os desfiles ocorreriam fora de época, sem caráter competitivo – na orla do Guaíba, e não no Complexo Cultural do Porto Seco. Contudo, após adiamentos, as apresentações foram canceladas devido a uma previsão de temporal.

Em 2019 os desfiles voltaram a acontecer, também em março, graças aos esforços de presidentes de escolas e entidades. Agoniza, mas não morre. Na figura aguerrida de seus componentes, o Carnaval de Porto Alegre segue resistindo e existindo. E se tivesse mais apoio oficial e da população como um todo?

Preconceito e racismo estrutural

Historicamente o Carnaval das escolas de samba de Porto Alegre luta contra o preconceito. Por ser uma manifestação cultural majoritariamente negra, as elites locais não o consideram parte formadora de uma identidade gaúcha. O racismo internalizado e estrutural da nossa sociedade deixa de lado essa manifestação cultural, como se não fizesse parte da cultura local tanto quanto o churrasco e o chimarrão. Carnaval e samba é coisa do Rio de Janeiro pra cima, Porto Alegre até esvazia no feriadão. Quando se faz essas afirmações, uma parcela significativa e importante da população da cidade é excluída. Porto Alegre e o Rio Grande do Sul são inegavelmente carnavalescos, ainda que muitos se neguem a enxergar.

É uma manifestação cultural que não apenas integra uma identidade local múltipla, como também é responsável por toda uma cadeia produtiva que movimenta a economia. Profissionais qualificados envolvidos com o Carnaval de Porto Alegre, desde a música até a produção de alegorias, fantasias e adereços, são chamados por escolas de samba de Rio de Janeiro, São Paulo, interior do Estado, Argentina e Uruguai para contribuir com as múltiplas atividades que envolvem os desfiles.

O Carnaval das escolas de samba é rico, pujante e merece ser muito mais valorizado e conhecido. Então fica a dica: atualmente em Porto Alegre nem tudo acaba na quarta-feira. Logo os ensaios são retomados e podem ser assistidos nas quadras das agremiações, e nas noites de 6 e 7 de março teremos desfile no Porto Seco.