"O Preço da Verdade" denuncia poluição ambiental

Drama estrelado por Mark Ruffalo e Anne Hathaway é baseado na história verídica de um ultrajante crime ecológico cometido pela gigantesca indústria química DuPont

Há uma espécie de subgênero que volta e meia destaca-se na produção hollywoodiana, despontando como se a indústria cinematográfica norte-americana lembrasse de algo como um “atestado de independência” auto-ilusório que precisa ser renovado de vez em quando: o filme que revela o poder e a corrupção das grandes corporações e/ou do governo. A lista extensa inclui produções aplaudidas e premiadas, mas também títulos que não ficaram na lembrança do público nem da crítica. Alguns desses dramas em que cidadãos comuns enfrentam o status quo apontando a manipulação do capital voraz tornaram-se exemplares do estilo, como Silkwood, Retrato de uma Coragem (1983), indicado a cinco Oscar, e Erin Brockovich, uma Mulher de Talento (2000) – que rendeu a Julia Roberts a estatueta dourada de melhor atriz. Baseados em histórias reais, O Informante (1999), com Russell Crowe, e O Desinformante! (2009), estrelado por Matt Damon, também encenaram na tela as acusações de ex-funcionários contra os abusos e crimes cometidos pelas firmas gigantescas para as quais trabalhavam.

O mais recente exemplar desse tipo de filme-denúncia é O Preço da Verdade (2019), cuja fonte, como em outras adaptações semelhantes, está em reportagens veiculadas pela imprensa – no caso, um artigo publicado no The New York Times. A história começa no final dos anos 1990, quando Robert Bilott (Mark Ruffalo), advogado de um escritório de Ohio que representa grandes empresas químicas, é procurado por um fazendeiro da mesma cidade em que ele nasceu, no Estado de Virgínia Ocidental. O homem (Bill Camp) quer contratá-lo para acionar a indústria que, segundo ele, vem poluindo há anos o riacho vizinho e a região com dejetos, provocando doenças e mortes em seu gado. A princípio, Bilott rejeita a causa, mas os indícios de contaminação em sua comunidade natal levam-no a investigar as atividades da DuPont na região. À medida que o advogado mergulha em provas, documentos e testemunhos, o que lhe parecia ser no máximo um caso de poluição local com lixo tóxico revela ser o subproduto de uma estratégia industrial e mercadológica criminosa implementada sigilosamente há décadas pela empresa, com terríveis consequências para o meio ambiente e a população. Obsessivo e meticuloso, Bilott embarca em uma cruzada pela verdade à testa de um corajoso processo judicial que se arrasta por anos, colocando em risco a carreira, a família – especialmente o relacionamento com a esposa (Anne Hathaway) – e mesmo a própria vida.

Em seu registro naturalista, O Preço da Verdade destoa da filmografia peculiar de Todd Haynes, diretor tanto das ousadas alegorias musicais Velvet Goldmine (1998) e Não Estou Lá (2007) quanto dos comoventes melodramas Longe do Paraíso (2002) e Carol (2015). O realizador, no entanto, mostra competência em um desafio essencial para que um filme do gênero de O Preço da Verdade mantenha o interesse: evitar que a trama seja tragada pelo aluvião de fatos e informações que um episódio verídico com personagens reais vivos inevitavelmente impõe, mantendo a clareza do enredo e o ritmo da narrativa. Mesmo passando longe do thriller de suspense eletrizante, o roteiro constrói um envolvente e ascendente vetor dramático que empurra o protagonista em frente de maneira quase cega – tão intoxicado que está pelo caso que abraçou quanto as vítimas da DuPont estão pelos poluentes.

Acima do peso e caracterizado com uma aparência neutra, Mark Ruffalo atua de maneira econômica, discreta, reforçando o caráter quase banal de seu protagonista de origem caipira, avesso a rompantes de eloquência e arroubos de heroísmo. O elenco inclui Tim Robbins e Bill Pullman, que encarnam veteranos advogados calejados no mundo dos acordos de escritório e disputas de tribunal. Mesmo sem acrescentar novidade, O Preço da Verdade cativa pela contundência de sua denúncia e a obstinação de seu desglamourizado herói de terno barato.

 

O Preço da Verdade: * * *  

 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

 

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