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A Netflix "made in Korea" é pra valer

Marcelo Carneiro da Cunha escreve sobre "Pousando no Amor", série sobre uma herdeira sul-coreana que vai parar por acaso na Coreia do Norte, caindo nos braços de um capitão do país vizinho inimigo

Você fala ao telefone e lava a sua roupa com coisas feitas pela Samsung. Seu Uber é da Hyundai, se não for um Sandero,ou um Ford Ka. As chances são grandes de você assistir as suas séries em uma tevê Samsung, ou LG. Eles já estavam em toda parte, mas agora estão dentro de toda parte também. Muitas, mas muitas das séries que você vê, cada vez mais, são sul-coreanas. Existem ainda as norte-coreanas, mas essas você não vê, ainda. E grupos de música K-pop lotam o estádio do Palmeiras aqui, o tempo todo. A coisa é pra valer. Sabem Parasita, o belo filme – e de longe o melhor a disputar o Oscar? Pois é.

Com essa produção toda, acontece mais ou menos tudo, inclusive coisas boas e ótimas, mesmo que a maioria seja bastante comercial, e para o mercado deles. A gente vê, mas a tradução é só na legenda. O que aquilo tudo significa, muitas vezes, passa ao largo da nossa compreensão. E, por isso mesmo, vale tanto você dedicar um tempo a explorar o fantástico mundo da produção coreana.

Pra começar, eu recomendo uma série que está na Netflix, com um título pra lá de tolo, e que está pra se tornar a série mais vista da história na Coreia. Lá fora se chama Crash Landing on You. Aqui, Pousando no Amor, vai entender.

O argumento é maravilhoso: uma princesinha herdeira de um chaebol sul-coreano – conglomerado, pra quem aí ainda não fala coreano fluente – vai passear de parapente nas montanhas de lá, vem um tornado à la Mágico de Oz, e ela cai na amigável e ultrarreceptiva Coreia do Norte. Mais especificamente nos braços de um nada amigável capitão do exército popular deles, de quem ela quase leva um tiro, antes de mais ou menos se apaixonar perdidamente, acho. Paixão em coreano não tem lá muito a ver com o que a gente conhece, vocês entendem.

Talvez nem todos saibam, mas houve uma guerra terrível entre as duas Coreias, em 1950, que matou mais de 1 milhão de pessoas e nunca terminou. A fronteira mais militarizada do mundo é entre eles, e, de tempos em tempos, a Coreia do Norte, que não leva desaforo pra casa, e acha absolutamente tudo um desaforo, ameaça mandar misseis, e manda. Falar que a relação entre eles é tensa é não saber o que tenso quer dizer. Além disso, a Coreia do Norte é a ditadura mais fechada do planeta, e lá não se entra, não se fotografa, e não se conversa com desconhecidos, e todos são desconhecidos. E lá está a nossa heroina, a doce Yoon Se-ri, capturada pelo capitão – e gato – Ri Jung-hyuk.

O que já torna a série interessante é você poder ver de dentro a Coreia do Norte. Claro que é uma realidade criada por sul-coreanos, e acredito que os cenários sejam na Mongólia, mas, de qualquer maneira, essa reprodução da vida desconhecida de lá é a coisa mais próxima do que efetivamente seja aquilo lá, e que se possa ver sem levar um tiro ou arriscar um voo pela Koryo, a companhia aérea ma non troppo deles.

A Coreia do Norte deu tão certo que nas imagens de satélite à noite ela aparece totalmente escura. Não falta luz porque ela não existe. Como ninguém tem geladeira, eles praticam a ancestral arte do kimchi, verduras fermentadas, e intensas, clássicas da culinária coreana.

Se o regime é pavoroso, as pessoas são pessoas, e nos encantam com a singeleza pré-industrial das suas vidas, e nos tocam com os rituais a que precisam se submeter para seguirem vivas. O que para nós é um regime insuportável, para elas é a única normalidade que conhecem, e nele elas se viram como der.

Os momentos de estranhamento são tantos que não vale listar. A série é coreana, para o público coreano, e nós somos um subproduto. Ela é uma comédia dramática, e o humor tem o sabor e a textura de kimchi. Já na parte drama, especialmente nos momentos de melodrama, a série vai muito, muito bem.

Esqueçam a tal de plausibilidade. Nada é plausível. Mas, em se tratando de Coreia, isso nem chega a ser um detalhe relevante.

A série tem uma distribuição diferente: a Netflix disponibiliza um episódio nos sábados e outro nos domingos. O resto da semana você aguenta como der. Quem começar agora, pode binge por 12 episódios e então entrar no solavanco geral desse método de produção. Eles estão gravando enquanto a série já está sendo exibida, e você vê claramente que alguns personagens ganharam espaço durante a série, por irem bem com o público – o caso dos trapalhões soldados do capitão, e das queridas mulheres do vilarejo norte-coreano, o núcleo não refrigerado da novela.

Um detalhe. Ele é capitão, ela é princesa. Mas, em tempos de feminismo global, nossa princesinha de delicada não tem um dedinho, e manda mais e melhor do que o nosso militar durão (e sensível). Ela não teme nada, não perde a calma diante de nada, e acredita firmemente nos seus poderes para resolver tudo que vier pela frente. Se-ri é uma mulher dos nossos tempos, e os isolados norte-coreanos acham que o inimigo é o capitalismo. Mal sabem eles.

Vejam.