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"Jojo Rabbit" detona o nazismo na base do riso

Indicado a seis estatuetas do Oscar, filme que tem no elenco Scarlett Johansson e Sam Rockwell conta a história de um menino na Alemanha nazista cujo amigo imaginário é Adolf Hitler

O nazismo não é brincadeira – mesmo assim, volta e meia o cinema faz piada com essa odiosa ideologia e seu abominável líder. Do clássico O Grande Ditador (1940), de Charles Chaplin, à comédia melodramática A Vida É Bela (1997), de Roberto Benigni – passando pelo irreverente humor de Mel Brooks em Primavera para Hitler (1967) e o inusitado filme romeno Trem da Vida (1998), de Radu Mihaileanu: para abordar o horror, esses filmes escolheram a poderosa arma do riso. O tema, claro, é inominavelmente trágico e traumático, o que faz da comédia um caminho perigoso de ser seguido nesse caso. É, portanto, admirável que um título como Jojo Rabbit (2019) consiga ao mesmo tempo comover e divertir sem cair no mau gosto, contando a história de um garotinho nazista fanático cujo amigo imaginário é ninguém menos do que Adolf Hitler.

Baseado no livro O Céu que Nos Oprime, de Christine Leunens, Jojo Rabbit está indicado a seis categorias do Oscar, incluindo melhor filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante (Scarlett Johansson). O roteiro e a direção têm a assinatura de Taika Waititi, ator neozelandês de ascendência multiétnica e origem judaica que encarna no longa uma versão hilariantemente caricata de Hitler. A desconstrução iconoclasta em Jojo Rabbit começa nos créditos iniciais, ilustrados com uma colagem de cenas de arquivo da Alemanha hitlerista ao som da versão germânica de I Want Hold Your Hand interpretada pelos Beatles – o resultado é um divertido e desconcertante clipe em que o fanatismo nazista se parece com a mais desatinada beatlemania. A trama é narrada em tom de sátira: em uma cidade alemã durante a II Guerra, o pequeno Jojo – vivido pelo adorável estreante Roman Griffin Davis – mora apenas com a mãe, Rosie (Scarlett), já que o pai sumiu no fronte. O guri solitário tem apenas dois amigos: um de verdade, o doce e amável Yorki (Archi Yates), e outro de mentirinha, seu ídolo Adolf Hitler. Apesar de só existir na fantasia de Jojo, a onipresente figura do ditador influencia as ideias e o comportamento do menino de 10 anos, incentivando-o a ser um nazista exemplar e oferecendo-lhe conselhos absurdos – além de cigarros.

Enquanto a mãe passa o dia fora envolvida em uma misteriosa rotina, Jojo convive com garotos e garotas em um amalucado campo de treinamento da Juventude Hitlerista, que parece saído do saudoso seriado televisivo Guerra, Sombra e Água Fresca, comandado pelo esquisitão e desajustado capitão Klenzendorf (Sam Rockwell). A rotina de Jojo muda depois de um grave acidente que o obriga a ficar mais tempo em casa, levando-o a descobrir por acaso que Rosie está escondendo no próprio lar uma adolescente judia (Thomasin McKenzie). O projeto de nazista depara então com um impasse: denunciar a refugiada Elsa ou manter o segredo da mãe.

Jojo Rabbit – o sobrenome “Coelho” tem relação com um episódio vivido pelo protagonista no tal campo – alterna-se entre o deboche ultrajante e o drama com toques sentimentais e até românticos. O enredo nunca perde a perspectiva do terror, lembrando sempre os efeitos danosos dos desastres da guerra, especialmente na vida do herói mirim – sem, entretanto, evocar a mesma dimensão trágica de filmes sobre jovens brutalizados pela violência nazista como O Tambor (1979), de Volker Schlöndorff, ou Vá e Veja (1985), de Elem Klimov. Merecem destaque as atuações do elenco, que, mesmo flertando às vezes temerariamente com o histriônico, sempre evitam o grotesco. Talvez o grande mérito de Jojo Rabbit esteja na capacidade que os personagens têm de manterem, cada um a seu modo, a humanidade e mesmo certa leveza diante daquele cotidiano cruel, estúpido e absurdo.

 

Jojo Rabbit: * * * * 

 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

 

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