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"Bad Boys para Sempre" requenta receita de sucesso

Filme com Will Smith e Martin Lawrence coloca novamente em cena dupla de policiais de Miami surgida em 1995, combatendo o crime em meio a cenas de ação frenéticas e piadas autocríticas

Em 1995, Michael Bay estreou como diretor em um filme de ação frenética, misturando policial e comédia e reunindo dois atores de sucesso na TV em início de carreira no cinema. Vinte e cinco anos depois, Will Smith e Martin Lawrence estão de volta em Bad Boys para Sempre (2020), desta vez dirigidos pela dupla belga Adil El Arbi e Bilall Fallah. No entanto, a fórmula da franquia criada por Bay – e adaptada pelo realizador e produtor em títulos como a série Transformers – repete-se no terceiro filme dos policiais de Miami que combatem o crime destruindo carros e outros veículos em desatinadas perseguições pelas ruas da cidade. Se no primeiro longa o casamento de ação com humor e o fato de colocar um par de astros negros em versões positivas do clássico formato que junta dois tiras de personalidades contrastantes mostrava algum frescor nas telas, Bad Boys para Sempre apenas requenta uma receita de sucesso e registra o desgaste criativo de uma ideia.

Em Bad Boys para Sempre, a grande amizade entre os protagonistas é colocada em xeque quando o piadista Marcus (Martin Lawrence) decide se aposentar depois de virar avô, para suprema contrariedade do hiperativo Mike (Will Smith). Ao virar alvo de um grande plano de vingança da rainha do tráfico mexicana Isabel (Kate del Castillo) e de seu filho Armando (Jacob Scipio), o detetive sangue-quente Mike coloca Marcus contra a parede, exigindo que o ex-companheiro volte à ativa. Sob a supervisão do capitão Howard (Joe Pantoliano) e de uma unidade de investigadores de elite ridiculamente chamada de AMMO, os parceiros vão tentar descobrir quem está por trás da série de assassinatos de autoridades em Miami – retaliação que tem a ver com o passado nebuloso de Mike e que ecoa muitas semelhanças com o enredo do filme anterior de Will Smith, o desastroso Projeto Gemini (2019).

Entremeando as mirabolantes sequências de perseguição e tiroteios intermináveis com momentos cômicos e tiradas sem muita inspiração, Bad Boys para Sempre se estende por pouco mais de duas horas em uma trama cujo combustível é a pura testosterona. Nas antípodas de O Irlandês (2019), de Martin Scorsese, que eviscera o complexo e contraditório liame que liga o mundo masculino em seus pactos e traições, o filme de Adil e Bilall mostra uma “brodagem” calcada unicamente na vertigem da assertividade e da violência viris – uma perspectiva na qual as mulheres, por óbvio, são apenas acessórios, estorvos ou troféus. Sintomático dessa visão é a ausência total de densidade e química entre Mike e Rita (Paola Nuñez), competente policial com a qual o herói teve no passado um romance: o roteiro insinua uma conexão entre ambos, mas a constante urgência por movimento em cena não é propícia a esse tipo de “fraquejada” sentimental. Já a apresentação do núcleo latino do enredo também não ajuda: mostrando a vilã chefona do cartel como uma autêntica bruja, cruel e vingativa – mais um traço misógino do filme –, e seu filho como um bruto macho jovem, Bad Boys para Sempre reforça a pior visão xenófoba e rasteira norte-americana a respeito de mexicanos e latino-americanos em geral. Em um dos muitos comentários irônicos de Marcus a respeito do imbróglio em que todos estão metidos, o policial fanfarrão debocha da conversa que escuta entre os personagens mexicanos, dizendo que os diálogos pedestres e melodramáticos parecem de telenovela – uma rara passagem autocrítica e interessante do roteiro.

Apesar disso tudo – ou talvez por causa –, Bad Boys para Sempre é um baita êxito de bilheteria nos Estados Unidos, performance que deve se repetir aqui no Brasil. Sempre há um público enorme ávido por mais perseguições automobilísticas malucas, explosões pirotécnicas e tiros sem fim – vide a iminente estreia de Velozes e Furiosos 9 (!) e o anúncio de Bad Boys 4, que certamente terá na trilha sonora outra vez aquela música tema da série, grudenta no ouvido como um chiclete. Evidente desde Os Bad Boys II (2003), a qualidade, digamos, artística da franquia mostra inegáveis sinais de cansaço, escorando-se hoje mais em reiteração e diluição do que em inovação – a despeito da persistente eficiência da dobradinha Smith-Lawrence, mesmo que já um tanto desgastada. Ao contrário do que apregoa o título autocongratulatório e vaticinador, Bad Boys para Sempre é na verdade a prova de que a dica de Marcus está certa e deveria ser seguida pelos responsáveis pela série: chega uma hora em que é preciso se aposentar.

 

Bad Boys para Sempre: * * 

 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

 

Assista ao trailer de Bad Boys para Sempre: