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"Judy: Muito Além do Arco-Íris" mostra o apagar de uma estrela

Filme sobre o final da vida da atriz e cantora Judy Garland pode render um Oscar à atriz Renée Zellweger, já premiada pelo papel no Globo de Ouro

Ela foi uma “Namoradinha da América”, estrela luminosa e jovial de telas e palcos; uma garota talentosa e encantadora destinada ao sucesso, mas que poderia ser a vizinha da porta ao lado. Também foi uma mulher emocionalmente instável, que teve cinco casamentos turbulentos e morreu de forma trágica consumida pelo vício em remédios e álcool. Judy Garland (1922 – 1969) é uma das representantes mais notáveis de talento moldado na implacável linha de produção industrial de Hollywood, cujo êxito no cinema cobrou um tributo alto demais da vida de seus “produtos”. Ao encarnar a eterna Dorothy de O Mágico de Oz (1939) em seus estertores de brilho artístico em Judy: Muito Além do Arco-Íris (2019), Renée Zellweger constrói uma figura tristemente fascinante e complexa, que já lhe rendeu o Globo de Ouro de melhor atriz de drama e a coloca como favorita ao Oscar da categoria.

Judy: Muito Além do Arco-Íris se passa em 1968, em um dos piores momentos da trajetória pessoal e profissional de Judy Garland: enfrentando dificuldades financeiras e emocionais para cuidar de si e do casal de filhos de seu quarto casamento – com Sidney Luft (Rufus Sewell), que produziu a célebre versão de Nasce uma Estrela (1954) protagonizada por sua esposa –, a atriz norte-americana está literalmente sem ter onde morar quando surge uma redentora proposta de trabalho na Inglaterra. Convidada a fazer uma temporada de shows cantando na casa de espetáculos Talk of the Town, Judy deixa as crianças com o pai e parte para o inverno londrino. A personalidade instável e a dependência de barbitúricos e bebida, porém, ameaçam constantemente sabotar os planos da artista, tanto sob os refletores quanto longe deles.

O filme é baseado na peça O Fim do Arco-Íris, do dramaturgo inglês Peter Quilter, que já teve uma montagem carioca em 2011 feita por Charles Möeller e Claudio Botelho – a dupla deve estrear em setembro uma nova produção do espetáculo, novamente com Claudia Netto no papel principal. No teatro, o clima feérico do mundo do cinema imiscui-se mais na narrativa do que na trama do filme – o roteirista Tom Edge e o diretor Rupert Goold preferiram privilegiar um tom mais realista e duro à história. Os flashbacks, no entanto, reproduzem em Judy: Muito Além do Arco-Íris o encanto enganador dos anos dourados hollywoodianos de maneira enviesada e mesmo perversa: nos bastidores de O Mágico de Oz, em meio a cenários e figurinos desse amável clássico infantil do cinema, uma adolescente Judy Garland (interpretada nessas cenas por Darci Shaw) aparece sendo pressionada de maneira cruel e até assediada sexualmente pelo produtor Louis B. Mayer (Richard Cordery), que exige da jovem atriz uma dedicação sobre-humana ao trabalho incessante. Encenando para o departamento de publicidade um dia a dia de falsa alegria e normalidade no estúdio ao lado de outro astro mirim, o ator Mickey Rooney (Gus Barry), Judy é submetida a sacrifícios como uma dieta espartana e o consumo ininterrupto de pílulas para acordar e dormir que acabariam por marcar profundamente sua existência – interrompida de forma precoce aos 47 anos por uma overdose de remédios.

Ainda que essas idas e vindas no tempo acentuem o contraste entre o sonho glamouroso e a realidade desencantada da trajetória de Judy e ajudem a entender a personalidade conflituada da personagem, não é exatamente na forma como conta sua história que o filme se destaca. Judy: Muito Além do Arco-Íris é antes de tudo uma vitória da atuação de Renée Zellweger. Oscarizada como coadjuvante por Cold Mountain (2003), a atriz vinha trilhando ultimamente uma carreira errática no cinema, que nem a volta em 2016 ao papel que a celebrizou na série de filmes da personagem Bridget Jones contribuiu. Encarnando Judy Garland, entretanto, Renée conseguiu mostrar com exuberância seus dotes interpretativos. Além de recriar com perfeição os trejeitos, a fala e o visual da diva – o filme concorre também ao Oscar de maquiagem e penteado –, a intérprete capturou a essência ambivalente da biografada, ao mesmo tempo divertida e triste, amante devotada e artista egoísta, romântica e amarga, competente diante dos holofotes e inábil na vida cotidiana, hedonista e autodestrutiva.

Em Judy: Muito Além do Arco-Íris, a cintilação da ribalta vence o cinza dos dias: os melhores momentos do filme são os números musicais, em que Renée Zellweger impressiona cantando com a própria voz temas como Get Happy, The Trolley Song, Come Rain or Come Shine, a antológica Over the Rainbow e, em especial, a confessional By Myself – em uma interpretação arrebatadora que provavelmente será premiada com uma estatueta dourada na próxima cerimônia do Oscar.

 

Judy: Muito Além do Arco-Íris: * * * 

 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

 

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