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Bárbara Paz no Festival de Veneza de 2019. Foto: Leonardo Chagas/Divulgação

Três (ou mais) perguntas para Bárbara Paz

A atriz e diretora fala sobre o documentário que dirigiu sobre o marido, o cineasta Hector Babenco (1946 – 2016), filme premiado no Festival de Veneza de 2019 e que entra em cartaz no dia 9 de abril

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A atriz Bárbara Paz estreou na direção de longa-metragem com uma despedida: Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou (2019), documentário sobre o cineasta Hector Babenco (1946 – 2016), com quem a artista foi casada, que morreu de câncer poucos meses depois do lançamento de seu derradeiro filme, Meu Amigo Hindu (2015), protagonizado pelo ator norte-americano Willem Dafoe. O documentário costura lembranças, reflexões, episódios e sentimentos sobre a vida e a obra de um dos maiores nomes do cinema latino-americano, diretor de títulos da grandeza de Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote: A Lei do Mais Fraco (1981), O Beijo da Mulher-Aranha (1985) e Carandiru (2003). O filme de Bárbara sobre o marido ganhou o prêmio de melhor documentário sobre cinema do Festival de Veneza de 2019 e chega acompanhado do livro de memórias Mr. Babenco – Solilóquio a Dois sem Um.

Na entrevista exclusiva a seguir, a gaúcha Bárbara – apresentadora do programa A Arte do Encontro, no Canal Brasil – fala sobre o filme de amor que dedicou ao realizador argentino naturalizado brasileiro: “Você assiste ao filme e entende o amor pelo cinema, o amor por esse homem, o amor desse homem pelo cinema, o amor desse homem pela vida e a nossa relação de amor”.

 

O livro Mr. Babenco e o documentário que você dirigiu revivem lembranças e episódios felizes e prazerosos da trajetória de Hector Babenco e do seu relacionamento com ele – mas também evoca momentos duros e tristes, de perda. Como foi debruçar-se e trabalhar sobre esse material e essas memórias?

Primeiramente, eu queria registrar esse homem, esse pensador, esse poeta ao lado do cineasta, que caminhava junto a esse contador de histórias. Paralelamente a isso, ele começou a ficar pior de saúde, então ele começou a ter urgência para que eu registrasse isso. Estava com algumas perdas de memória, com medo. Então, ele queria fazer um filme sobre memória, em que ele falasse. Ele não queria que outra pessoa falasse dele. Começamos a registrar tudo, áudios, vídeos, o que desse para fazer entre a doença e a obra de arte. Paramos para ele fazer o filme Meu Amigo Hindu (2015), que começou enquanto eu estava no meio do documentário. Descobriu que o câncer tinha voltado e quis fazer esse último filme. Ele pediu que a filmagem de Meu Amigo Hindu estivesse no meu filme. Durante o processo com ele, foi quase como um acalento saber que esses momentos estavam sendo registrados. Pra ele foi muito importante, isso está impresso no filme. Acabou sendo um filme de despedida. Depois que ele se foi, muito mais cedo do que eu esperava, eu tinha 40% do material do filme. E os outros 60%?

O trabalho maior de dor foi na montagem, descobrir realmente como intercalar tudo isso, memórias, filmes e despedida. Foi um trabalho grande, eu ia e voltava várias vezes da ilha (de edição). Todo mundo achava que eu não queria terminar o filme pra não me despedir dele, mas é muito pelo contrário. Queria deixar ele num lugar na arte que ele merecia. Que as pessoas conhecessem esse homem. Foi dolorido, mas ao mesmo tempo foi uma missão pra mim. Desse amor congelado na tela. Você assiste ao filme e entende o amor pelo cinema, o amor por esse homem, o amor desse homem pelo cinema, o amor desse homem pela vida e a nossa relação de amor.

 

Você diz que o cinema manteve Babenco vivo e que ele se sentia como um refugiado na vida. Comente um pouco sobre essa relação existencial do cineasta com a arte, por favor.

Ele fala isso no filme, que se sentia como um refugiado na vida. Falava que aqui no Brasil as pessoas achavam que ele era argentino e na Argentina achavam que ele era brasileiro. Então é difícil essa falta de raiz própria, identidade própria. Ele se sentia um beatnik, um andarilho. Só que a doença fez ele permanecer no Brasil. Ao assistir ao filme, você entende como a arte fez ele permanecer vivo. A arte salvou ele, o cinema mesmo. O contador de histórias que ele era e que queria continuar sendo salvou ele para sobreviver mais.

 

Como você vê o atual momento do cinema no país, em que o êxito e a premiação dos filmes brasileiros nos festivais internacionais ocorre ao mesmo tempo em que há um movimento promovido pelo governo de descrédito e desmonte do audiovisual?

Como diz nossa mestra Fernanda Montenegro, acho que o audiovisual está mesmo vivendo problemas, mas vai passar. É uma falta de entendimento. Quantas famílias são alimentadas pelo audiovisual brasileiro? Muitas! O ano que passou talvez tenha sido o de mais sucessos dos filmes brasileiros no exterior, em premiações internacionais. O Brasil interessa muito, o cinema brasileiro, a arte brasileira, o brasileiro. A riqueza do Brasil está impressa nessas obras. Fiz parte desse momento sem saber. Meu filme foi feito praticamente só com meu dinheiro. Eu sou produtora, eu investi. Eu não conseguiria respirar se não entregasse esse poema meu para o mundo, esse Hector pelo meu olhar. Felizmente, tenho outro trabalho que me permitiu fazer esse filme. Mas acho que essa situação vai passar. A gente só não pode parar de criar e construir. Sem dinheiro eu sei que a gente não consegue fazer nada, mas a gente não vai parar. Um dia isso muda. Vai ser um ano difícil, mas a gente vai resistir.  

 

As mulheres estão ocupando cada vez mais os postos atrás das câmeras no cinema brasileiro. Mais: estão sendo vistas e reconhecidas como diretoras, roteiristas, montadoras, diretoras de fotografia. O caminho ainda é muito longo para a equanimidade entre mulheres e homens no audiovisual?

As mulheres estão ocupando cada vez mais espaço, não apenas no cinema brasileiro, mas no mundial. A gente sempre acreditou, mas agora estão acreditando cada vez mais que nós mulheres somos capazes, criadoras, empreendedoras. Isso é só o começo. Eu trabalhei com mulher montadora, roteirista, diretora de fotografia. Acho que a gente também tem que ajudar as outras, fazer time de mulheres. Não sou totalmente feminista para dizer “só mulheres”. A gente tem de equalizar o mundo com mulheres e homens.

 

Quais são seus próximos projetos como diretora e atriz? Quando o documentário vai estrear?

Estou desenvolvendo um roteiro de ficção para um filme novo, em que já trabalho há tempos. Estou escrevendo também um livro. Tudo sem prazo. É algo muito pessoal, todos os meus projetos são autorais, quero continuar nessa linha. Estou aberta a convites de direção de projetos que não sejam meus, claro. Vou seguir na direção em paralelo à carreira de atriz, nunca vou abandonar o palco. Recebi um aval de crença no meu trabalho de direção, o Hector já tinha me dado essa confiança. Ele dizia: “Acredita, você não é só uma atriz, você tem que confiar no seu olhar de diretora”. O documentário estreia no dia 9 de abril. A gente sabe que documentário fica pouco tempo nos cinemas, então logo ele vai para as plataformas de streaming.