"O Escândalo" denuncia o assédio sexual nas grandes corporações

O filme estrelado por Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie é baseado em caso verídico de abuso cometido pelo ex-CEO da rede televisiva Fox News e concorre a três Oscar

O assédio sexual na indústria do cinema norte-americano ganhou repercussão internacional quando uma série de denúncias de atrizes contra o todo-poderoso produtor de cinema Harvey Weinstein veio à tona em 2017. Um ano antes do rumoroso caso que deu origem ao movimento #MeToo, outro grande tubarão da mídia foi apontado como predador sexual por suas subordinadas: Roger Ailes, então CEO do canal de televisão Fox News. O doloroso e arriscado caminho tomado pelas mulheres que decidem quebrar o silêncio machista quanto aos abusos de seus superiores homens está no cerne de O Escândalo (2019), filme que narra a história de três apresentadoras de telejornal da Fox que decidem confrontar o chefão Ailes – e que está indicado a três Oscar, incluindo melhor atriz (Charlize Theron) e atriz coadjuvante (Margot Robbie).

Uma das produtoras do filme, a estrela sul-africana Theron chamou Jay Roach para dirigir O Escândalo. A trama acompanha o tsunami provocado nos bastidores da grande imprensa televisiva dos Estados Unidos em 2016 quando a apresentadora Gretchen Carlson (Nicole Kidman) decide processar Roger Ailes (John Lithgow) por assédio sexual depois de ser demitida. Após a surpresa inicial, outras funcionárias da conservadora rede televisiva Fox News começam a refletir sobre episódios de assédio vividos por elas e passam a questionar sua situação dentro da emissora, como a competente e veterana âncora Megyn Kelly (Charlize Theron) e a novata e ambiciosa Kayla Pospisil (Margot Robbie) – única personagem fictícia do trio central feminino. Logo torna-se evidente que o evento com Gretchen não foi um fato isolado, mas sim uma prática notória incorporada à cultura da empresa.

O roteiro de O Escândalo leva a assinatura de Charles Randolph, que também escreveu a história de A Grande Aposta (2015). Da mesma forma que em A Grande Aposta e Vice (2018), ambos dirigidos por Adam McKay, O Escândalo flerta com recursos típicos do documentário e das reportagens televisivas, como narrações e imagens de arquivo autênticas, além de passagens nas quais os personagens falam diretamente para o espectador olhando para a câmera. Nada muito novo: essa quebra da quarta parede em que o ator de repente passa a conversar com o público foi explorada com inteligência na série House of Cards e retomada no recente O Irlandês por Martin Scorsese – o mestre, aliás, é um dos mais hábeis manipuladores dessa técnica no cinema contemporâneo. O Escândalo não chega a abusar desse truque metalinguístico, limitando-se a utilizá-lo quando o enredo concentra muitas informações e citações a pessoas ou para acelerar o ritmo da trama.

Um dos acertos de O Escândalo é encarar a complexidade do tema: sem deixar margem para dúvidas quanto à posição de vítimas imposta às mulheres por um sistema de abuso e assédio masculinos alicerçado no poder, a trama dramatiza as dificuldades, hesitações e dilemas que uma acusação dessa natureza coloca para as denunciantes. Em um ambiente violentamente competitivo como o televisivo, negar-se a participar do jogo de sedução cujas regras são ditadas pelos homens pode custar para a profissional feminina o fim das perspectivas de crescimento dentro daquela emissora, a perda do emprego ou mesmo o banimento de qualquer outra empresa do meio. Em O Escândalo, esses impasses pontuam as ações das protagonistas, confrontadas tanto pela dúvida com relação ao limite em que desejam avançar no embate com o chefe executivo da Fox quanto pelo silêncio das colegas que calam temendo por seu futuro.

O filme também leva a plateia masculina a questionar-se desconfortavelmente – em especial na discutível cena em que Ailes pede para uma funcionária levantar a saia até que apareça a roupa íntima. O diretor filma do ponto de vista do homem sentado, de baixo para cima, colocando o espectador literalmente na posição do abusador. Para muitos – talvez em particular as mulheres –, a sequência pode ser condenável por reiterar de certo modo a exploração do corpo feminino; no entanto, a reação de total constrangimento e desconcerto da personagem com o ocorrido condena qualquer interpretação sensualizante, reforçando o incômodo na audiência masculina que eventualmente tenha apreciado a imagem. A despeito do julgamento, essa cena ambivalente é sem dúvida um dos pontos altos do filme.

O Escândalo disputa também o Oscar de melhor maquiagem, muito graças ao trabalho para deixar John Lithgow tão gordo como Roger Ailes. Aliás, Lithgow está ótimo na pele do machista e desagradável executivo – mas O Escândalo é um filme de mulheres, e elas brilham em cena, com destaque para Margot Robbie e, especialmente, Charlize Theron. Atrizes cujas indicações à cobiçada estatueta dourada do cinema são merecidíssimas.

 

O Escândalo: * * * 

 

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

 

Confira o trailer de O Escândalo: