João Cabral de Melo Neto. Foto: Bob Wolfenson/Reprodução

João Cabral

O professor e escritor Luís Augusto Fischer escreve sobre o poeta João Cabral de Melo Neto (1920 – 1999), imortal da Academia Brasileira de Letras cujo centenário é celebrado no dia 9/1

Uma frase-feita pernambucana diz que lá, naquele Estado que em muita coisa rima com o Rio Grande do Sul – identidade forte, cultura letrada entranhados de elementos populares, cultura republicana antiga, insubmissão ao mandonismo central –, quem não é Cavalcante é cavalgado.

Ou o cara está em cima, ou está embaixo. Ou monta ou é montado.

Se é verdade essa separação, João Cabral de Melo Neto pertence à primeira metade. Família proprietária tradicional, gente letrada, de cima.

Mas esse patamar é apenas o começo da história deste que é, para mim, um poeta tão grande quanto os dois maiores da língua, Drummond e Fernando Pessoa. (Tem Camões, mas ele é outra coisa: menor que esse trio aí, sendo o pai de todos.)

Sua obra não é tão vasta, nem tão colorida. Pelo contrário, ele tem só meia-dúzia de ideias e formas, que ele girou ao redor do sol até o fio ficar perfeito.

Com essa lâmina é que ele corta os objetos que ilumina: pode ser um cão sem plumas andando – a gente lê “cão sem plumas”, fica embatucado e só então enxerga que um cão não as tem! –, uma bailadora andaluza vista em ação, a mulher amada deitada na cama, um jogador de futebol em pleno drible, o coronel baiano falastrão.

João Cabral inventou uma língua para si, por dentro do português que conhecemos. Com viés racionalista, analítico, nunca se deixou derramar pelas bordas de sentimento algum; mas foi ele que escreveu Morte e Vida Severina. Eternamente em atitude comparativa, é talvez o mais profundo surrealista brasileiro.