Lee Ranaldo vem a Porto Alegre a convite do Cine Esquema Novo

O ex-integrante da cultuada banda Sonic Youth participa da sessão de "Ainda Temos a Imensidão da Noite" na sexta-feira (22/11), na Cinemateca Capitólio. O músico deu entrevista exclusiva para o site

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Um dos destaques do festival Cine Esquema Novo, que se inicia nesta quinta-feira (21/11) em Porto Alegre, é o filme Ainda Temos a Imensidão da Noite. A resistência de uma cantora e trompetista é testada no novo filme do diretor Gustavo Galvão.

Rodado em Brasília e em Berlim, o drama  narra a saga de Karen (Ayla Gresta), que vê o esfacelamento de sua banda de rock e de suas relações em uma realidade cada dia mais desoladora. Aos 27 anos, ela deixa Brasília para dar vazão à paixão pela música.

Além do diretor e do elenco, a sessão de Ainda Temos a Imensidão da Noite dentro do festival na sexta-feira (22/11), na Cinemateca Capitólio, contará com uma presença tri especial: o músico norte-americano Lee Ranaldo. Ex-integrante da cultuada e barulhenta banda norte-americana Sonic Youth, o guitarrista assina a produção musical do longa – que estreia no dia 5 de dezembro nos cinemas. Ranaldo ajudou a potencializar o som do grupo formado especialmente para o filme com músicos de Brasília, acrescentando influências tão diversas quanto o pós-punk, o indie rock e o free jazz.

O nova-iorquino Lee Ranaldo esteve por quase três décadas ao lado de Kim GordonThurston Moore e Steve Shelley na banda que alargou os limites do rock alicerçada na ética e na energia do punk. Nos últimos anos, o músico tem lançado sozinho e em parcerias discos que conciliam a tradição da canção norte-americana com o experimentalismo que consagrou o cantor, compositor e guitarrista – além de trabalhar associado a projetos de artes visuais e atuar como curador de festivais musicais.

Pois o gente-boa Ranaldo trocou uma ideia especialmente para o site. Confira a entrevista aqui com o músico que fez um baita show solo em Porto Alegre em maio de 2018, no Teatro Unisinos.

 

Como foi o processo de criação da trilha sonora de Ainda Temos a Imensidão da Noite?

Trabalhar na trilha sonora foi, de certa forma, muito intuitivo. Os integrantes da banda vinham ensaiando as músicas que foram escritas para eles, e minha função no filme foi preparar a banda tanto para as gravações quanto para as apresentações ao vivo, consolidar as músicas, fazer ajustes finais e torná-las um conjunto holístico escrito por essa jovem banda. Foi muito orgânico. Trabalhamos duas semanas e meia em Brasília, primeiro gravando, depois mixando. Foi muito bom, todo o projeto começou depois de um show que fiz em Brasília, quando Ayla, atriz do filme, me procurou para dizer que estava começando a escrever um roteiro e me perguntou se eu gostaria de participar. Ela me colocou em contato com Gustavo Galvão [diretor de Ainda Temos...] e começamos a falar por Skype. Concordei em participar e voltei a Brasília por mais duas semanas para as gravações.

 

Quais são os principais desafios para compor música para um filme ou projeto de artes visuais?

Acredito que o maior desafio desse tipo de trabalho em que eu não era o compositor – as músicas foram compostas por outros dois artistas, eu era o produtor e, em alguns casos, o arranjador – foi tornar as músicas coesas e oferecer ao filme o que era necessário. Por exemplo, algumas canções precisavam de ambiência para soar como se tocadas em um porão; outras, ao ar livre. Mais do que qualquer coisa, o maior desafio foi oferecer ao diretor o que ele precisava para o filme. Também fazer a banda soar coesa. O tempo que passamos no estúdio os preparou para a gravação do filme, quando eles tocaram para as câmeras. Já tínhamos definido como cada música deveria ser, então a banda conhecia as canções muito bem para tocá-las ao vivo.

 

O que você está escutando atualmente?

Ouço todo tipo de música. Meu novo álbum, que está prestes a sair, é muito experimental, então tenho ouvido muitos compositores de música eletrônica, mas também voltei a ouvir alguns de que gosto muito, como Steve Reich, em particular seu trabalho Music for 18 Musicians, que é muito inspirador. E tenho escutado bastante o disco de uma compositora muito jovem, da qual nunca tinha ouvido falar, chamada Meara O’Reilly, e seu disco Hockets for Two Voices. São músicas para duas vozes femininas, sem letra. É um disco muito curto, com cerca de 12 minutos de duração. Mas é tão bonito, tenho ouvido no repeat sem parar. Deixei claro para mim no último ano que tenho uma grande admiração por uma artista de Chicago que atende por Circuit des Yeux. Ela lançou um álbum, há um ano e meio, chamado Reaching for Indigo. Seu nome é Haley Fohr e tive o prazer de convidá-la para gravar vocais no nosso próximo álbum, que sairá em fevereiro. Foi muito interessante.

 

Você sabe que tem muitos fãs aqui no Brasil. Em sua opinião, quais foram as maiores contribuições do Sonic Youth para a música contemporânea?

Acredito que o Sonic Youth mostrou ao público que para ter sucesso artístico é preciso ser verdadeiro com as suas intenções e não se deixar persuadir pela fama, pelo dinheiro ou por qualquer outra coisa que não seja a sua decisão de ser verdadeiro com a sua arte. Sempre colocamos as intenções de nossas músicas acima de qualquer demanda comercial, financeira ou de popularidade. Tentamos nos manter coerentes com nossa visão. E acredito que muitos artistas jovens e mais velhos se inspiraram no fato de que éramos capazes de fazer aquilo, sermos uma banda muito pouco usual, fora do mainstream, e ainda assim sobrevivermos.

 

Quais são seus próximos projetos? 

O próximo projeto mais importante é o lançamento do meu novo álbum em fevereiro. É a terceira vez que gravo com meu amigo de Barcelona Raül Refree, e essa é a primeira vez que nossos nomes estarão juntos na capa. Então é basicamente um novo projeto em duo. O disco se chama Names of North End Women e será lançado pela gravadora Mute. Lançamos o primeiro single (homônimo) e vídeo na semana passada. É um novo experimento entre nós, música eletrônica combinada com gravações acústicos de violões, bateria, percussão e instrumentos étnicos. Estou muito empolgado. É um dos projetos mais experimentais da minha carreira. Esperamos fazer uma grande tour após o lançamento.