Prefeitura Municipal lança concurso cultural na Feira do Livro de Porto Alegre

"Conte um Conto e Aumente um Ponto" tem como objetivo que o participante complemente o relato original, escrito por dez importantes autores da cidade

Durante a Feira do Livro, a Secretaria de Comunicação e a Secretaria de Cultura de Porto Alegre oferecem a possibilidade de participar de uma obra coletiva em e-book, com 10 importantes autores da cidade. Para isso, cada um dos escritores (Alcy Cheuiche, Ana Mottin, Cintia Mocovich, David Coimbra, Jane Tutikian, José Francisco Botelho, Juremir Machado da Silva, Marô Barbieri, Roberta Flores Pedroso e Tabajara Ruas) iniciou um conto cheio de posssibilidades imaginativas.

O participante poderá escolher um desses relatos e complementá-lo, valendo-se de mais ou menos 30 linhas. É posssível encontrá-los na estante da Prefeitura, na Feira no Livro, no site da Prefeitura ou ainda na fanpage da Coordenação do Livro.

Uma comissão julgará as melhores sequencias criadas e essas serão aproveitadas no e-book, juntamente com os textos originais dos escritores convidados. Além disso, os selecionados receberão livros de editoras locais. Os contos finalizados deverão ser entregues até sábado (16/11), no estande da Prefeitura, na Feira do Livro, ou enviados até segunda (18/11) para o e-mail da Coordenação do Livro: cll@smc.prefpoa.com.br

 

Contos originais sugeridos

 

1. Alcy Cheuiche

Pajelança

Oporopo observa o pajé beber o tafiá, bebida afrodisíaca para evocar os espíritos dos animais. Agora ele dança, imitando um boto que mergulha e emerge; é um grande ator o nosso pajé. Mas ele acertou o diagnóstico, o risco imediato é de edema pulmonar, água nos pulmões. Preciso começar o tratamento, pelo menos, aplicar uma morfina no meu paciente. Mas tenho que esperar que ele espalhe as folhas sobre o corpo, cumpra todo o ritual. Se não acreditar na pajelança, melhor ir embora daqui para sempre. Eu vivi tantos anos com os brancos, entrei na universidade pela porta das cotas (a dos fundos, como muitos dizem) para ser médico, voltei para cuidar dos meus, e agora...

 

2. Ana Mottin

Roleta Russa

Pegou o envelope que a moça lhe alcançava por sobre o balcão. Era branco, o nome do laboratório impresso em letras grandes e azuis. A moça sorria. Teria lido o resultado? Não, era um sorriso protocolar, desses, armados para tornar menos aflitivas as retiradas de exames. Enfiou o envelope na mochila. Leria mais tarde.

O ônibus PUC-IPA não demorou a chegar, conseguiu um lugar sentado. Estava com sorte. Lera o horóscopo antes de sair: “escorpião representa a morte, não como fim, mas como passagem para uma nova fase”. Retirou o envelope da mochila e o colocou contra a luz. Conseguia ver o papel dentro, mas estava dobrado, não dava pra ler. Passara a semana pensando no que faria se estivesse escrito “POSITIVO”.

 

3. Cintia Moscovich

Segredo ao Mar

Mesmo que vários anos se tenham passado, ninguém nunca teve certeza do que realmente aconteceu a Paulo Alfredo naquele feriado de Carnaval.

Márcio, amigão do peito de Paulo Alfredo e seu confidente desde que eram crianças, parece ter sido a única criatura viva a saber mais detalhes sobre o acontecido. No entanto, nunca falou uma vírgula: quando perguntado, muda de assunto, comenta que vai chover, lembra que tem compromisso com uma tia.

O que se sabe é que Paulo anunciou que iria acampar sozinho em alguma prainha deserta de Santa Catarina: precisava pensar melhor na vida, depois de romper um namoro de oito anos com Cristina. Todos entenderam e deram força; apenas a mãe tentou impedir, preocupada que o filho fosse para algum cafundó sem luz elétrica e banho quente. E ela ainda ofereceu mais um motivo, que fez todos darem gaitada:

— Anda aparecendo um monte de objetos voadores não identificados pelos lados de Florianópolis.

Paulo Alfredo riu da mãe e prometeu que ia tirar uma foto com o ET de Varginha, caso ele aparecesse numa praia de pescadores em Floripa.

Márcio farejou diversão e disse que queria ir junto. Paulo Alfredo explicou a Márcio que era hora de tomar decisões sozinho e saiu muito cedo, no sábado de manhã, mochila nas costas.

Quando voltou, na quarta-feira à noite, parecia outra pessoa. Caladão, monossilábico, olhar perdido. Nem parecia que tinha ido à praia, porque voltou mais brancão do que tinha saído. Trancafiou-se no quarto e nada de abrir. Durante quatro dias, Márcio bateu e bateu na porta do amigo, sem sucesso. Até Cristina, a ex, foi chamada para esmurrar a porta e pedir que ele abrisse. Nada.

No quinto dia, quando as mulheres do grupo de oração da mãe de Paulo Alfredo começavam as rezas na sala, Márcio decidiu arrombar a porta do quarto do amigo como nos filmes da tevê, na base de patadas.

Depois da primeira patada na porta, antes que estrago maior fosse feito, Paulo Alfredo abriu a porta. A primeira coisa que disse foi:

 —  Tudo bem, eu conto o que aconteceu. Mas você não vai acreditar.

 

4. David Coimbra

 Assassinato por Comodidade

 Quando decidi matar a minha mulher, não foi por dinheiro, nem por ter outra – eu não tenho outra. Foi por comodidade.

 É que minha mulher é chata.

 Tenho um amigo que diz que TODAS as mulheres são chatas. Não sei, pode ser, só que a minha é muito, muito, muito chata. Não é má. É chata.

 Essa chatice dela, bem, me chateia. Fico aborrecido todos os dias de conviver com ela, sempre me criticando, sempre dando opinião, sempre braba. O meu amigo dizia: “Nunca se case com uma mulher braba”. Eu não o ouvi. Meu Deus, como minha mulher é chata.

 Alguém pode achar que eu deveria me separar dela, mas isso é muito complicado. Nós só temos um apartamento, e ele não é grande. Se me separasse, teria de vendê-lo e o dinheiro seria mínimo para cada um. Além disso, amo as minhas filhas e não quero ficar longe delas. Elas são gêmeas lindas, sou louco por elas. Estão com três aninhos, idade perfeita para perder a mãe sem traumas. Posso cuidar delas sozinho, até porque minha mãe as adora e me ajudaria. Seria perfeito. E o melhor: elas não continuariam a conviver com uma mãe CHATA, que decerto vai estragar a personalidade delas com sua imensa e melequenta chatice. Teríamos, eu, minhas filhas, minha mãe, meu cachorro, teríamos todos nós uma vida suave e boa, sem a presença nefanda da minha mulher.

Portanto, urge matá-la. Quero matá-la. Vou matá-la.

Mas como?

 

5. Jane Tutikian

A roupa de palhaço

Depois de entrar no quarto decidida a por um fim naqulio tudo, e de muito revirar o guarda-roupa dele, depois de procurar no quarto das crianças, de abrir um por um os estojos dos instrumentos musicais, de vasculhar a enorme quantidade de partituras, encontrei numa sacola de plástico de super-mercado, atrás da cortina. Encontrei. Era a prova de que eu precisava, mas nem por isso sabia o que fazer com ela.

 

6. José Francisco Botelho

 Tocaia

Na hora mais silenciosa da madrugada, os homens que vinham matar Jango Vieira acamparam na Tapera Alta, às vistas da encruzilhada. Eram três, e chegaram a cavalo. O mais alto, de chapelão mole e poncho rasgado no ombro, viera de Cerro Largo na tarde anterior; talvez fosse castelhano, mas seria impossível dizer com certeza, pois durante todo o tempo não pronunciou palavra. Apenas assentira, com um mínimo descair do queixo, ao receber as instruções do magrinho de barbicha, o que cavalgava no meio: um sujeito chamado Lacerda (se me contaram a história direito). Esse Lacerda era homem de pestana caída, e olhava sempre para os cantos ao conversar com os outros: a figura perfeita para liderar uma morte à traição. Apenas ele sabia por que iriam matar Jango Vieira; os outros dois só seguiam suas ordens.

Tinham se reunido no Bolicho da Tigra, ao pôr do sol; numa mesa de canto, à luz do lampião esverdeado, Lacerda explicara aos outros a tarefa da madrugada; e tomaram o rumo da Tapera antes que a lua nascesse. Ao grandalhão que talvez fosse castelhano, caberia dormir na mira atrás das tunas e esperar a hora de fazer fogo; já o tal Lacerda abordaria Jango Vieira na encruzilhada, quando ele passasse por ali a caminho das invernadas.

 E havia, claro, o terceiro integrante do grupo, que a bem dizer ainda não era homem, mas um guri. Órfão ou filho das macegas, era um desses que andam pelos arrabaldes dos povoados, sempre atrás de algum valentão mais velho, procurando quem lhe ensinasse alguma coisa: estava ali para se iniciar nas artes de malfeitor, o único ofício que lhe restava neste mundo. Tisnado de pele, puxado nos olhos, ele respondia, e ainda responde, pelo nome de Caruru. Naquele momento, começava a preparar o fogo, pensando se Jango Vieira já estaria tomando seu último mate lá no galpão caiado, atrás das coxilhas. Riscou o fósforo, assoprou as brasas, e sentiu pena do homem que estavam para matar. Mas não disse a ninguém.

Ou melhor: disse a mim, apenas, anos depois. Pois foi ele quem me contou esta história.

 

7. Juremir Machado da Silva

Roteiro de um Crime

Amanhece na Barra da Tijuca. Faz frio no Rio de Janeiro. Mas tem sol. Um escritor em busca de sucesso caminha na praia. Surge um homem encapuzado e dispara contra ele. Descarrega o revólver. Um dos tiros entrou no olho direito da vítima. Há sangue nas areias da Barra. Ao lado corpo, um livro: “Como foi possível?”

 

8. Marô Barbieri

O Segredo

Não podia continuar assim. Precisava falar. Mas como? Com que coragem conseguiria levar adiante o plano que havia traçado?

Precisava de coragem, isso sim. Coragem que nunca tivera na vida. Era um fraco, diziam seus irmãos, truculentos e pouco amistosos. A própria mãe se preocupava com aquela passividade que sempre o caracterizara.

Mas, enfim, era chegada a hora.

 

9. Roberta Flores Pedroso

 Atrás das Sombras

Os anos se passaram rapidamente. Na sala, todos se preparavam para assumirem suas turmas. Mas naquele dia, foi diferente. Um novo professor chegara de surpresa para assumir a vaga de um dos integrantes do grupo que necessitara se afastar. Lentamente, ela levantou a cabeça e só viu uma sombra que se confundia com as lembranças do passado. Pousou as mãos sobre a mesa, era como se aos poucos, perdesse as forças que o tempo havia restituído. Uma sensação de angústia oprimiu-lhe o peito. Fora preterida  por este homem que agora seria o seu novo colega.  Naqueles longos e cinzentos anos, sua luta cotidiana resumira-se em superar o que havia ocorrido. Entre um “bom dia” e outro, o intruso fitou-a com um sorriso e sentenciou: “Há quanto tempo!”.

 Essas palavras surpreenderam-na como um pássaro que entrasse pela janela.

 

10. Tabajara Ruas

 Lunar

Se Deus existe, e se Ele for misericordioso, a minha morte será rápida. Mas há muito tempo que não acredito mais na sua existência, e muito menos na sua misericórdia. O garrote vil foi projetado para ser doloroso. E para ser letal. Essa é sua função. Nada a poderá alterar. Talvez eu não acreditasse em Deus quando estava dentro daquele navio. Porque lá, naquele navio, Ele não foi misericordioso e a única prova de sua existência foi o horror e a desolação. No naufrágio morreram quase todos os padres, menos dois, ambos de nome Antônio. Tomaram caminhos diferentes e nunca mais se viram. Eu sou um dos dois Antônios, o que veio para o sul. Enquanto espero a madrugada, ouço os passos lá fora e penso: garrote vil, que nome para uma máquina de matar.