Andrea Giunta. Foto: Acervo Pessoal

Bienal 12 vai discutir a arte contemporânea e os femininismos

Curadora chefe da próxima edição da Bienal do Mercosul, a argentina Andrea Giunta fala sobre suas ideias para a mostra de arte, que vai se realizar em Porto Alegre 16 de abril a 5 de julho de 2020

A argentina Andrea Giunta é a curadora chefe da próxima Bienal do Mercosul, que será realizada em Porto Alegre de 16 de abril a 5 de julho de 2020, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (Margs) e no Memorial do Rio Grande do Sul. Curadora, escritora, professora e pesquisadora, Andrea Giunta (Buenos Aires, 1960) vai explorar como tema da Bienal 12 a relação entre arte, feminismo e emancipação.

Entrevistei Andrea Giunta na época em que seu nome foi anunciado pela Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul – e reproduzo aqui as concepções e ideias iniciais da curadora chefe de uma das mais importantes mostras de arte contemporânea da América Latina.


O tema da Bienal 12 contemplará as articulações entre arte, feminismo e emancipação. Quais serão, em linhas gerais, as estratégias curatorais adotadas com o objetivo de abordar as conexões entre esses temas?
Encontramo-nos em um momento preliminar da Bienal, no qual estamos formando as equipes, desenhando as estratégias. E embora a arte, o feminismo e a emancipação sejam termos-chave no conceito desta Bienal, ainda não estabelecemos um título. Não partimos da certeza de que sabemos o que esses termos significam. Vamos problematizar essas noções e ampliar seus significados para redefini-los. O que é arte? O que é feminismo? O que queremos dizer com emancipação? Há uma questão central em que a arte tem sido particularmente envolvida: o lugar das mulheres e todas as dissidências (sexuais, culturais, não normativas, de classe, de raça) na cultura e na sociedade contemporânea. Feminismos, mais que feminismo. A esse respeito, começamos a investigação para a Bienal a partir de agora e em forma conjunta, convidando para um fórum que terão lugar a arte, a performance, a história da arte, e também a legislação, o ativismo trans, as perspectivas de raça, interseccionais, e, centralmente, a questão sobre a relação entre o campo da arte – predominantemente branco, masculino e de classe média ou alta – e exclusão. Queremos conhecer pontos de vista, instalar uma reflexão conjunta e, fundamentalmente, ser conscientes a respeito de tudo o que, na arte, não podemos ver e desfrutar simplesmente porque é um mundo que costuma ter portas muito estreitas.


Um dos eixos principais de seus estudos está relacionado com a inserção da produção latino-americana no contexto mais amplo da arte contemporânea internacional, advogando um protagonismo para a América Latina e questionando visões que separam dicotomicamente centro e periferia, metrópole e colônia, vanguarda e reprodução. A Bienal 12 será também cenário dessas investigações?
Nas pesquisas e exposições em que fiz a curadoria, se subvertem as ideias de periferia ou descentralização a partir das quais sempre se aborda a arte da América Latina, África e Ásia, e que as coloca em uma situação de marginalidade. Tudo acontece primeiro no eixo euro-norte-americano e depois no resto do mundo. O que se propõe é pensar a arte desde a simultaneidade, como “vanguardas simultâneas”. Se seguirmos o modelo canônico de vanguardas históricas, se subscrevermos a lógica dos movimentos artísticos que ocorreram na primeira metade do século, se sustenta que os artistas viajavam para a Europa para “aprender”. No entanto, o que encontramos é que eles imediatamente transformavam os modelos dos quais supostamente partiam, e o melhor exemplo é o de Tarsila do Amaral, que, junto de Oswald de Andrade, instala a metáfora da antropofagia para argumentar que, frente à cultura europeia, mais do que segui-la (ou copiá-la), o que cabe é devorá-la. É uma metáfora poderosa e controversa. Uma análise lúcida de suas implicações se encontra no livro que Roberta Barros publicou recentemente sobre arte e feminismo no Brasil. Se essa forma de atuar em relação à cultura europeia pode ser analisada na primeira metade do século 20, desde o pós-guerra isso é muito mais forte. Existem muitos fatores que intervêm para que esse surgimento simultâneo da vanguarda ocorra em diferentes metrópoles do mundo. Essas simultaneidades estéticas, com linguagens comparáveis, que têm pontos em comum e ao mesmo tempo diferenças profundas, são extremamente interessantes. Ambos os aspectos são relevantes, o comum e o diferente, o que nos leva aos contextos específicos em que cada trabalho é formulado. Na arte do pós-guerra, o corpo, e particularmente o corpo da mulher, passa a ser explorado como um problema. É claro que o impacto de livros como O Segundo Sexo (1949), de Simone de Beauvoir, ou The Feminine Mystique (1963), de Betty Friedan, ajuda a desenhar um horizonte de problemas comuns. No entanto, a intensidade de obras de arte que em diferentes partes do mundo estão problematizando o corpo não vem de livros, mas da experiência. Uma experiência pessoal e social que começa a se comunicar, e que gera um "horizonte de tempo". A mídia refere-se ao lugar das mulheres, o ativismo feminista problematiza o lugar das mulheres e a arte, a literatura ou o cinema também. Trata-se de uma consciência que é expressa simultaneamente em diferentes partes do mundo, através de diferentes linguagens artísticas. Hoje estamos em um novo horizonte de tempo em que os essencialismos são problematizados, os conceitos binários de sexualidade são questionados e em todo o mundo se expressam movimentos contra o feminicídio, o assédio e a discriminação. A ideia de família foi transformada, se desmarca a afeição regulada e suas formas se multiplicam. Aspiramos a que a Bienal dê conta dessa riqueza, dessas complexidades que aconteceram e que acontecem em diferentes partes do mundo.


Certamente ainda é cedo para se falar em nomes, mas é possível adiantar se a Bienal 12 será mais concentrada em representantes latino-americanos – como já aconteceu em várias edições da mostra – ou se veremos uma amostragem mais abrangente de artistas em termos geográficos?
A Bienal será internacional, mas, neste momento em que nos dedicamos a formar a equipe de trabalho, não posso definir nem como serão as representações. A América Latina, sem dúvida, terá uma presença forte e inovadora. Mas, se queremos compreender a dimensão global dos feminismos e como estes estão interligados com diferentes formas de arte, uma perspectiva internacional é necessária.


A permanência das bienais é uma questão que passa pela qualidade de sua percepção social antes e depois do evento – particularmente em relação às comunidades mais próximas do seu epicentro. Você poderia comentar, ainda que sucintamente, a respeito de eventos preparatórios da Bienal 12, como o seminário que foi realizado durante a Feira do Livro de Porto Alegre de 2018?
Queremos estabelecer um relacionamento intenso com os públicos da cidade de Porto Alegre. A intenção, começando agora com um seminário, é que a Bienal não seja um grande evento que aterrisse na cidade dentro de dois anos, mas que interaja com os artistas, com o público, com a universidade, que produza um novo conhecimento, que envolva os cidadãos de Porto Alegre como participantes ativos.

Nos últimos anos, o formato de bienais e trienais vem sendo muito discutido e mesmo colocado em xeque por certos críticos, artistas e acadêmicos. Na sua opinião, qual é a relevância e a função das bienais no mundo de hoje?
O espaço para a cultura nunca é suficiente. O que pode ser expresso no campo da arte não necessariamente pode ser expresso em outros espaços. É um âmbito em que se põem em questão os limites do que conhecemos. Então, como podemos renunciar a um âmbito tão privilegiado como é o de uma bienal, na qual artistas que nunca estiveram no mesmo espaço, de diferentes partes do mundo e de diferentes propostas, podem se encontrar? Entendo que a disputa entre modelos é oportuna, promocional, mas de maneira nenhuma nos permite concluir que as bienais vão desaparecer ou que são formatos que não servem mais: é como sustentar que os museus ou a arte não funcionam mais. A bienal é um formato entre muitos outros: o importante é analisar o que cada um nos deixa. Em lugar de jogar com a ideia da bienal como espaço em vias de dissolução, em vez de partir da ideia de uma perda, de um fim, propõe-se concebê-la como uma oportunidade extraordinariamente generosa, um espaço no qual pode produzir-se uma transformação das sensibilidades e de nossos conceitos sobre o mundo.


Sobre a curadora
Andrea Giunta conta com uma ampla experiência na arte latino-americana no cenário internacional, em exibições, ensaios de revistas especializadas e catálogos de exposições, ensino e investigação acadêmica. Seus campos de interesse incluem a arte do século 20 e 21 da América Latina e do mundo. É autora de diversos escritos a respeito de arte latino-americana, memória e política, o poder das imagens – particularmente sobre a obra Guernica, de Picasso – e a relação entre arte, gênero e feminismo na América Latina.

É pesquisadora principal do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas da Argentina e professora de Arte Latino-Americana e de Arte Internacional na Universidade de Buenos Aires. Foi “Chair in Latin American Art History and Criticism” na Universidade do Texas em Austin, onde também foi diretora fundadora do Center for Latin American Visual Studies (CLAVIS). Foi professora visitante da École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris), professora visitante da Universidade Nacional Autônoma do México, professora visitante da Universidade de Duke, em Durham (EUA), professora visitante da Universidade de Monterrey (México) e “Tinker Visiting Professor” da Universidade de Columbia (Nova York), entre outros créditos acadêmicos. Foi palestrante em museus e universidades como o MoMA (Nova York), o Museu Centro de Arte Reina Sofía (Madri), o Haus der Kunst (Munique), o Bahnhof Museum (Berlim), a Harvard University, a University of California (Berkeley), o Art Institute (Chicago), a Princeton University e a New York University.

Andrea é autora de diversos livros, como Avant-Garde, Internationalism and Politics, Argentine Art in the Sixties (Duke University Press), Poscrisis (Siglo XXI), Escribir las Imágenes (Siglo XXI), Objetos Mutantes (Palinodia), ¿Cuándo Empieza el Arte Contemporáneo? (ArteBA) e El Guernica de Picasso (Biblos). Seu livro mais recente, Feminismo y Arte Latinoamericano, foi publicado em 2018 pela editora Siglo XXI. Foi curadora da Retrospectiva de León Ferrari, apresentada no Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires, e na Pinacoteca de São Paulo; cocuradora da exposição Extranjerías, com Néstor García Canclini, no Museu de Arte Contemporânea da UNAM, no México; e cocuradora de Verboamérica, com Agustín Pérez Rubio, no Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires. É cocuradora da exposição Radical Women. Latin American Art, 1960-1985, com Cecilia Fajardo-Hill, exibida no Hammer Museum de Los Angeles, no Brooklyn Museum de Nova York e na Pinacoteca do Estado de São Paulo.