Antonio Banderas e Penélope Cruz em "Dor e Glória". Foto: Divulgação

Almodóvar remodela a memória em “Dor e Glória”

Novo filme do cineasta espanhol rendeu o prêmio de melhor ator a Antonio Banderas

O trânsito entre presente e passado tem sido um recurso cada vez mais constante no cinema de Pedro Almodóvar. Especialmente a partir de Fale com Ela (2002), passando por Má Educação (2004), Volver (2006), Abraços Partidos (2009) e Julieta (2016), o cineasta espanhol vem alicerçando seus filmes em movimentos temporais que jogam constantemente os personagens, os eventos e mesmo o público para trás e de volta ao agora, a fim de construir aos poucos as complexas personalidades de seus protagonistas e adensar os dilemas que vivem. Sempre marcada pela melancolia, essa abordagem narrativa ganha tintas explicitamente confessionais em Dor e Glória (2019): ainda que afirme não se tratar de uma autobiografia, o diretor confessa que seu mais recente trabalho é o que lhe representa de forma mais íntima. Exibido no último Festival de Cannes, Dor e Glória rendeu um merecido prêmio de atuação a Antonio Banderas, que impressiona com sua atuação contida e um tanto soturna.

Na história, o astro espanhol encarna o diretor de cinema Salvador Mallo, alter ego inequívoco de Almodóvar, personagem cujo figurino foi decalcado do guarda-roupa do realizador – até o corte de cabelo de Banderas lembra o do mestre. Vivendo praticamente recluso em seu confortável apartamento em Madri – decorado com quadros e livros do próprio Almodóvar e situado na rua onde o cineasta mora na realidade –, Salvador enfrenta um longo período longe das câmeras. O consagrado diretor está paralisado por um bloqueio criativo e também por problemas físicos e psicológicos – um calvário de doenças e dores inspirado no prontuário médico de Almodóvar.

A rotina de Salvador, de amargo ensimesmamento doméstico intercalado com consultas a médicos, sofre um estremecimento quando ele é informado que um de seus antigos sucessos será homenageado e exibido pela cinemateca espanhola, mais de 30 anos depois de seu lançamento. Divorciado dessa obra por conta de uma briga na época com o ator principal, Salvador surpreende-se ao assistir novamente ao filme, reconsiderando o julgamento negativo que até então tinha da atuação de Alberto Crespo (Asier Etxeandia). Ao retomar contato com seu antigo astro – agora um semidecadente ator –, Salvador reaviva ainda mais as recordações de outros tempos, que lhe têm assombrado ultimamente. Embalado pela descoberta dos efeitos do uso da heroína, ele mergulha com maior intensidade nas lembranças da infância humilde no campo nos anos 1960, a convivência com o pai e, especialmente, a mãe (Penélope Cruz, como sempre ótima), os tempos de colégio, o nascimento da paixão pelo cinema, o despertar da sexualidade.

Às vésperas de completar 70 anos, Pedro Almodóvar realiza em seu 21º longa-metragem uma autoficção nostálgica que lembra títulos como Oito e Meio (1963), de Federico Fellini, Memórias (1980), de Woody Allen, e Fanny e Alexander (1982), de Ingmar Bergman. Além das evocações de outros tempos – que incluem um acerto de contas de Salvador com a mãe já idosa –, Dor e Glória também apresenta reiteradamente o conceito de arte como manifestação superior da vida, deplorando a inatividade criativa do personagem com uma espécie de morte do espírito. “Sem filmar, minha vida não faria sentido”, diz Salvador – mas podemos perfeitamente visualizar Almodóvar pronunciando essa frase. Apartado da criação – e, portanto, da vida –, Salvador entrega-se a uma melancolia quase mórbida, que contagia as cenas ambientadas no presente e ameaça tragar até o filme por inteiro. Almodóvar, porém, sabiamente não permite que a história avance pelo viés melodramático ou autocomiserativo, refreando eventos e emoções que em suas antigas produções mais transgressoras costumavam evoluir até o transbordamento e o exagero. Essa contenção, aliás, chega a ser até excessiva, aproximando temerariamente o tom geral de Dor e Glória do limbo abúlico em que seu protagonista está imerso durante boa parte do filme.

No entanto, por se tratar de um dos mais talentosos cineastas da atualidade, Almodóvar tira partido com inteligência e sensibilidade dessa espécie de anestesiamento narrativo para potencializar os momentos de comoção e arrebatamento da história. E não faltam cenas pungentes em Dor e Glória: o garoto observando a mãe com as amigas cantando animadamente enquanto estendem os lençóis na beira do rio, o buraco no teto da caverna onde a família mora e que recorta um pedaço do céu para o pequeno Salvador, o beijo ardente e entregue que ele troca na maturidade em um reencontro com o ex-amante (Leonardo Sbaraglia), a febre que derruba o menino ao ver o corpo nu do rapaz que admira, fulminado por uma epifania de beleza e desejo. Entre o torpor e a excitação, Dor e Glória celebra o poder do cinema – e da música, da literatura, do teatro, da pintura – de transformar a memória em matéria-prima existencial rica e constantemente remodelável. Um manifesto – às vezes demasiado grave – sobre a força da arte, que Salvador/Almodóvar acredita ser capaz de transcender a vida.

 

Assista ao trailer de Dor e Glória: