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Diane Kruger em "Aos Pedaços". Foto: Imovision/Divulgação

A tela é delas

Três filmes entram em cartaz mostrando que é a hora das mulheres poderosas no cinema: "Em Pedaços", "Maria Madalena" e "Tomb Raider: A Origem"

Cada vez mais a mulher é protagonista no cinema. A presença feminina na frente e atrás das câmeras certamente não é de hoje – nos últimos anos, no entanto, a participação e a visibilidade delas na indústria cinematográfica mundial têm aumentado de maneira admirável. É certo que ainda há muito por conquistar, tanto em termos de ocupação de postos nesse mercado e de papéis na produção audiovisual quanto em questões que deveriam ser mais prosaicas, como igualdade de tratamento e remuneração com relação a profissionais masculinos – é espantoso, por exemplo, como ainda hoje os salários pagos a homens sejam em média escandalosamente maiores do que os recebidos por mulheres, mesmo no mundo de astros e estrelas de Hollywood. Esse bem vindo movimento de ocupação das telas pelas mulheres anda de braços dados com o efetivo aumento da representatividade nas produções da diversidade de gêneros, etnias e culturas – Pantera Negra, êxito de bilheteria atualmente em cartaz, é dirigido por um afro-americano e tem elenco com quase 100% de atores negros, incluindo quatro personagens femininas fortes.

Não chega a causar surpresa, portanto, que ao menos três dos filmes programados para estrear nesta quinta-feira (15/3) em Porto Alegre tenham mulheres empoderadas à sua frente – cada qual com uma abordagem temática singular e visando públicos a princípio distintos entre si: Em Pedaços, de Fatih Akin, Maria Madalena, de Garth Davis, e Tomb Raider: A Origem, de Roar Uthaug. Vencedor do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e do Critic’s Choice Awards na mesma categoria, Em Pedaços é o novo longa do diretor de filmes igualmente interessantes como Contra a Parede (2004) – Urso de Ouro no Festival de Berlim – e Do Ouro Lado (2007). No poderoso drama Em Pedaços, o cineasta alemão de origem turca inspirou-se nos assassinatos cometidos por um grupo de extrema direita da Alemanha entre 2000 e 2006 e na forma como a polícia e as autoridades agiram diante desses crimes, investigando os parentes das vítimas e as transformando em suspeitos no estágio inicial das investigações. Esse cenário serve como pano de fundo para a história de uma mulher pacata que se transforma em uma viúva com sede de vingança depois que a tragédia se abate em sua família.

Na trama de Em Pedaços, Katja Sekerci (Diane Kruger) é uma alemã que leva uma vida normal ao lado do marido turco Nuri (Numan Acar) e do filho de sete anos do casal. Depois que uma bomba colocada diante do escritório de Nuri explode matando o homem e o menino, a devastada Katja decide lutar por justiça ao descobrir que os responsáveis são integrantes de um grupo neonazista. Conhecida por seus trabalhos em grandes produções como Troia (2004), na qual viveu a cobiçada Helena de Troia, Bastardos Inglórios (2009), quando foi dirigida por Quentin Tarantino, e Adeus, Minha Rainha (2012), interpretando a polêmica soberana francesa Maria Antonieta, a alemã Diane Kruger impressiona pela intensidade de sua atuação no longa de Akin – curiosamente, Em Pedaços é o primeiro filme da atriz falado em alemão. Modelo de grifes de luxo como Dior, Chanel, H. Stern, Jaeger e Le Coultre, a linda Diane também tem talento dramático – tanto que levou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2017 e já tem mais uma parceria firmada com Fatih Akin: interpretará a lendária diva alemã Marlene Dietrich (1901 – 1992) em uma série de TV.

Maria Madalena é uma espécie de desagravo à mítica seguidora de Jesus Cristo e seus apóstolos, que foi estigmatizada pela Igreja Católica como prostituta – pecha popularizada depois de um discurso feito pelo papa Gregório I em 599. Em 2016, o papa Francisco reconheceu oficialmente a proeminência de Maria Madalena entre os apóstolos do Nazareno, referindo-se à santa como “apóstolo para os apóstolos” e “apóstola da esperança”. No filme do australiano por Garth Davis, diretor do emocionante Lion: Uma Jornada para Casa (2016), a mulher que abandona a família para acompanhar Jesus em sua peregrinação é apresentada como uma das poucas pessoas – se não a única – a efetivamente entender o sentido das palavras do Messias. Em Maria Madalena, Rooney Mara interpreta a jovem que desafia sua família tradicional ao decidir não aceitar um casamento arranjado e partir ao lado de Jesus de Nazaré (Joaquin Phoenix) e seu grupo. Na jornada rumo a Jerusalém, Madalena vai aos poucos acercando-se do filho de Deus, tornando-se sua interlocutora mais próxima. A intimidade da apóstola novata com Cristo e sua interpretação dos ensinamentos do líder desagradam discípulos como Judas (Tahar Rahim, de O Profeta) e Pedro (Chiwetel Ejiofor, de 12 Anos de Escravidão). A tese de Maria Madalena é de que a protagonista seria a tradutora mais fiel do catecismo crístico ao sustentar que o reino do céu já estaria dentro de cada um no presente, e não que se trata de uma quimera a ser buscada em alguma dimensão fora do aqui e agora. No filme, o cristianismo nasce cindido entre o perdão incondicional defendido por Maria Madalena (apresentado como um princípio feminino) e o inconformismo insurreto e quase beligerante de Pedro (princípio masculino).

Finalmente, Tomb Raider: A Origem leva novamente para as telas a destemida Lara Croft, personagem nascida nos jogos eletrônicos e que já tinha sido encarnada no cinema por Angelina Jolie. No novo filme da franquia, a ricaça arqueóloga britânica que roda o mundo aventurando-se em meio a tumbas amaldiçoadas e ruínas milenares ganha o belo rosto – e os músculos – da sueca Alicia Vikander, vencedora do Oscar de atriz coadjuvante por A Garota Dinamarquesa (2015). Como o título informa, Tomb Raider: A Origem se passa antes da personagem virar heroína casca grossa: aos 21 anos, Lara Croft ganha a vida fazendo entregas de bicicleta pelas ruas de Londres, recusando-se a assumir a companhia global e a fortuna do pai (Dominic West), desaparecido há sete anos depois que embarcou em busca do centenário sepulcro de uma terrível princesa japonesa. Tentando desvendar o sumiço do pai, que todos julgam morto, a moça decide largar tudo para ir até o último lugar onde o milionário esteve, embarcando em uma perigosa jornada rumo a uma ilha misteriosa do Japão.

Apesar de ancorar dramaticamente a trama no relacionamento entre filha e pai, Tomb Raider não consegue ser mais do que outra convencional e malfadada versão para o cinema daquela dinâmica característica dos games, em que o jogador-avatar tem que superar enigmas, tarefas, obstáculos e diferentes fases. Se no console funciona, esse tipo de estrutura raramente consegue se sustentar no cinema do ponto de vista narrativo por causa da ausência de interatividade, fundamental na lógica dos games. Aproveita-se portanto pouco do roteiro previsível e pedestre – ressalva-se, no máximo, uma louvável valorização da determinação feminina em confrontar um mundo dominado por homens. Não há nem mesmo sugestão de envolvimento romântico masculino da mocinha em Tomb Raider – ao contrário: no começo do filme, depois de um violento treino de Lara com uma lutadora no ringue de uma academia, uma garota que assistia ao embate despede-se da protagonista dizendo que a encontrará depois em casa, insinuando ao espectador que entre as duas pode existir mais do que apenas uma amizade. Definitivamente, elas estão empoderadas.

Assista ao trailer de Em Pedaços
 

 

Assista ao trailer de Maria Madalena:

 

Veja a atriz Rooney Mara falando sobre seu papel em Maria Madalena:

 

Assista ao trailer de Tomb Raider: A Origem:
 

 

Originalmente publicado no site Coletiva.net em 14/03/2018